Policial exige drogas e fuzil para não prender homem em Piracicaba
Policial exige drogas e fuzil para não prender em Piracicaba

Um policial militar exigiu dez quilos de drogas e um fuzil como condição para não prender um homem durante uma abordagem em Piracicaba (SP), em janeiro de 2026. A revelação consta em relatório do Ministério Público (MP) que aponta suspeitas de extorsões, simulação de flagrantes e fragilidades nas provas obtidas em ações policiais. O documento foi elaborado após o aumento de relatos desse tipo e do número de mortes decorrentes de intervenção policial na cidade.

Segundo o MP, o homem havia acabado de retornar de um pronto-socorro com a esposa e o filho quando foi abordado. Durante a ação, um policial teria apontado a arma e dito que o mataria diante da família, exigindo a entrega do local onde estariam as drogas. Ameaçou que, caso não colaborasse, ele e a esposa seriam presos após apanhar. O homem afirmou não ter drogas. O policial então exigiu a delação de um traficante, prometendo soltura se a polícia encontrasse entorpecentes com o suspeito. Diante da negativa, a condição final foi a entrega de dez quilos de droga e uma arma de fogo, o que foi aceito pelo homem para ser liberado.

Conversas comprovam cobrança

Prints de conversas obtidos pelo Ministério Público detalham a comunicação entre o homem e um dos policiais nos dias seguintes. Os trechos indicam cobrança do agente e mudança na exigência: não mais maconha (a “verde”), mas cocaína (a “branca”), além do fuzil. Mensagens do policial incluem: “Não esquece seu compromisso mais tarde!”; “Não é verde, é da branca.”; “Não fuja do seu compromisso.”; “Faz o seguinte, vamos deixar a água passar por baixo da ponte, se acha que é muito para você, mas na hora de bater no peito, pensei que estava na ideia com home.”; “Dia 20 alguém vai te chamar. Esteja com tudo na mão.”

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Diante das evidências, a Promotoria encaminhou ofício à Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo para providências. Em resposta, a Corregedoria informou que cumpriu mandados de busca e apreensão em 11 de fevereiro de 2026 contra dez policiais militares.

Aumento da letalidade policial

O relatório foi motivado pelo crescimento de episódios de extorsão e violência, principalmente em 2025. A Promotoria avaliou a dinâmica dos casos e elaborou recomendações. A análise constatou que a taxa de letalidade policial em Piracicaba era inferior à média estadual em 2024, mas superou-a em 2025. Especialistas ouvidos pelo g1 no início de 2026 consideraram esse crescimento “fora da normalidade”.

Ao examinar mortes decorrentes de intervenção policial, o MP afirmou que as provas evidenciaram “como a combinação entre ausência de registro objetivo, demora documental e manejo indevido de vestígios produz um cenário de fragilidade probatória”. O relatório aponta divergências entre depoimentos de agentes e provas colhidas nas investigações. Além disso, documentos de prisões em flagrante revelaram padrões que fragilizam as provas judiciais, como:

  • Indícios consistentes de irregularidade na entrada da polícia em residências, em ao menos um caso;
  • Recorrência de alegações de “plantio/forjamento” de objetos como armas e drogas;
  • Crescente dependência de prova audiovisual, como câmeras de terceiros e registros externos;
  • Presença de imputações graves com indicação de apuração pela Corregedoria.

Recomendações do MP

O relatório foi encaminhado à Secretaria da Segurança Pública, Comando-Geral da PM, Corregedoria-Geral, CPI-9, 10º BPM/I, Delegacia Seccional de Piracicaba, Polícia Técnico-Científica, Direção do Foro da Comarca e Secretaria Executiva da Promotoria de Justiça Militar. O documento destaca a importância da implementação de câmeras corporais pela PM em Piracicaba e lista outras recomendações:

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  • Registro cronológico padronizado dos horários relevantes;
  • Reforço expresso do dever de preservação do local e de não alteração do estado de coisas até a chegada da autoridade policial e perícia;
  • Vedação de circulação não essencial em cena sensível, com identificação mínima dos agentes que ingressaram no local antes da perícia;
  • Rotina de preservação e requisição célere de mídias externas pela Polícia Civil, com registro formal da diligência;
  • Auditoria periódica em ocorrências selecionadas para aferição de aderência aos protocolos.

O que dizem os responsáveis

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que acompanha permanentemente os indicadores de mortes decorrentes de intervenção policial e analisa o contexto de cada ocorrência e a legalidade da atuação. Sobre Piracicaba, a pasta encaminhou ao MP um estudo técnico sobre as ocorrências de oposição à intervenção policial, o recrudescimento da ação criminosa na região e as medidas adotadas pela PM para análise das condutas. A SSP ressaltou que mantém dados em transparência ativa e responde a solicitações dos órgãos de controle. A PM, por meio do Sistema de Supervisão e Padronização Operacional (SISUPA), elabora, revisa, treina e supervisiona os Procedimentos Operacionais Padrão. O g1 também procurou a Polícia Militar, mas não obteve retorno até a última atualização.