O bebê Bento Vasconcelos Dutra, de Uberaba (MG), tornou-se o primeiro caso no Brasil de tratamento intrauterino preventivo contra a Doença Hepática Aloimune Gestacional (GALD), uma condição rara e grave que pode levar à insuficiência hepática e morte do feto ou recém-nascido. O tratamento foi iniciado na 14ª semana de gestação, por meio de infusões semanais de imunoglobulina aplicadas na mãe, a pediatra Isabela Vasconcelos. A estratégia impediu que os anticorpos maternos atacassem o fígado do bebê, resultando em um parto saudável.
O que é a GALD?
A Doença Hepática Aloimune Gestacional ocorre quando anticorpos da mãe atravessam a placenta e atacam o fígado do feto, causando lesões hepáticas severas. Sem tratamento rápido, a taxa de mortalidade é alta. Segundo o obstetra Alberto Peixoto, especialista em medicina fetal, “a doença apresenta uma alta taxa de recorrência, ou seja, a chance de uma gestante com síndrome de GALD apresentar um novo caso chega na casa dos 90% a 95%”.
A perda da filha Betina
Os pais, Isabela Vasconcelos (pediatra) e Raul Dutra (oncologista), já haviam perdido a primeira filha, Betina, para a mesma doença. A gravidez de Betina transcorreu normalmente até o sétimo mês, quando foi identificada restrição de crescimento fetal. O parto prematuro ocorreu com 33 semanas, e Betina nasceu com apenas 1,5 quilo. Apesar dos esforços médicos, a bebê faleceu dias após o nascimento devido a complicações da GALD. “Infelizmente, não tem diagnóstico na gestação. Então, assim, são sinais subjetivos”, relatou Isabela. O diagnóstico só foi confirmado postumamente, após contato com um especialista em fígado.
O tratamento inovador de Bento
Após a confirmação da GALD, a família sabia que uma nova gestação teria alto risco de recorrência. A partir da 14ª semana, Isabela iniciou infusões semanais de imunoglobulina intravenosa, tratamento que visa neutralizar os anticorpos maternos. O acompanhamento foi feito por especialistas de Uberaba e São Paulo. Bento nasceu saudável, sem sinais da doença. “A gente está vivendo um milagre”, comemorou Isabela, destacando a importância do diagnóstico precoce.
Instituto Betina: conscientização e apoio
Após a perda da filha, Isabela e Raul fundaram o Instituto Betina, que acolhe famílias em situação de vulnerabilidade em Uberaba e região. A organização arrecada e doa itens de higiene, enxovais, cestas básicas, roupas e calçados, além de lanches para pacientes e acompanhantes. “Depois da Betina, a gente teve uma vontade muito grande de ajudar o próximo”, finalizou Isabela. O g1 procurou o Ministério da Saúde para informações sobre monitoramento nacional da GALD, mas não obteve resposta até a última atualização.



