Terminar um dia de trabalho e, antes de ir para casa, ter direito a beber cerveja diretamente dos tonéis da fábrica era algo que fazia parte da rotina dos funcionários da antiga Cervejaria Antarctica, uma das indústrias mais importantes da história de Ribeirão Preto (SP). Instalada na cidade em 1911, a unidade funcionou por mais de nove décadas e ainda desperta a nostalgia dos moradores mais antigos.
Esta reportagem faz parte da série 'Histórias Escondidas', uma produção especial da EPTV, afiliada da TV Globo, para celebrar os 170 anos de Ribeirão Preto, comemorados em 19 de junho. Curiosidades, personagens marcantes e fatos que pouca gente conhece ajudam a entender a trajetória de uma das cidades mais importantes do estado de São Paulo.
Ingresso e divisão de funções
Informações sobre o cotidiano dos trabalhadores foram reunidas pela pesquisadora Mêire Cristina de Castro na tese 'Memória do trabalho: histórias de trabalho e dos trabalhadores da Cervejaria Antarctica de Ribeirão Preto (SP)'. Segundo a pesquisa, o ingresso na empresa geralmente ocorria por indicação de familiares ou conhecidos que já trabalhavam no local. Os candidatos também passavam por processo de seleção antes da contratação, que em alguns casos envolvia uma prova admissional.
Já dentro da cervejaria, as atividades eram distribuídas entre diferentes setores. Os homens atuavam principalmente em funções ligadas à operação de caldeiras, manutenção de equipamentos e movimentação de cargas. As mulheres trabalhavam, em sua maioria, em áreas como revisão de garrafas, rotulagem e embalagem dos produtos. A divisão das funções seguia critérios adotados pela empresa na época.
A sirene e o chope após o expediente
Além da produção de cervejas e refrigerantes, a Antarctica também fazia parte da rotina de moradores de Ribeirão Preto por conta da sirene instalada na fábrica. De acordo com relatos reunidos pela pesquisadora, o apito tocava diariamente às 6h, ao meio-dia e às 18h. O som podia ser ouvido em diferentes regiões da cidade e servia como referência de horário para parte da população. Os depoimentos apontam que moradores costumavam organizar compromissos e atividades do dia a partir dos horários marcados pela sirene. O sinal também indicava o início, os intervalos e o encerramento das atividades dentro da cervejaria.
Após o fim da jornada de trabalho, os funcionários tinham acesso a um benefício oferecido pela empresa. Depois de bater o ponto e retirar o uniforme, era permitido consumir cerveja produzida na própria fábrica. O consumo era feito diretamente dos tonéis e ocorria em um espaço destinado aos trabalhadores. De acordo com os depoimentos, os funcionários tinham 20 minutos para aproveitar.
Fechamento da unidade
A unidade da Cervejaria Antarctica em Ribeirão Preto encerrou as atividades em 2003, após mais de nove décadas de funcionamento. A fábrica chegou a empregar milhares de trabalhadores ao longo de sua história e manteve forte ligação com bairros próximos, especialmente a Vila Tibério, onde muitos funcionários residiam. O encerramento ocorreu alguns anos após a fusão entre Antarctica e Brahma, anunciada em 1999, operação que deu origem à Ambev. Nos anos seguintes, a unidade passou por mudanças até a paralisação definitiva das atividades.
Com o fechamento, os equipamentos industriais foram retirados e parte das estruturas utilizadas na produção acabou demolida. O antigo prédio administrativo permaneceu preservado e ainda remete ao período em que a cervejaria funcionava na região central da cidade.



