É bem provável que debaixo dos seus pés, agora mesmo, exista uma das maiores estruturas vivas do planeta: uma rede densa de fungos microscópicos que percorre os solos do mundo inteiro, conecta raízes de plantas e, sem que ninguém perceba, ajuda a regular o clima da Terra. Um estudo publicado nesta quinta-feira (11) na revista Science mapeou essa infraestrutura pela primeira vez — e os números impressionam. Para ver onde essas redes estão mais densas e onde estão mais ameaçadas, os pesquisadores lançaram um mapa interativo gratuito que permite explorar qualquer ponto do planeta.
Extensão colossal
Os filamentos desses fungos, chamados de hifas, somam cerca de 110 quatrilhões de quilômetros. Essa extensão equivale a quase um bilhão de vezes a distância da Terra ao Sol. "É difícil exagerar a importância e a imensidão desses fungos", disse Justin Stewart, autor principal do estudo. "Pode haver até 10 metros de rede fúngica em apenas uma colher de chá de solo."
Funcionamento e importância ecológica
O funcionamento é simples de entender: esses organismos se ligam às raízes das plantas e fazem uma troca. Eles levam água e nutrientes — chegam a fornecer mais de 80% do fósforo que as plantas precisam — e recebem de volta o carbono produzido pela fotossíntese. É por isso que estão presentes em parceria com cerca de 70% de todas as espécies vegetais da Terra. Mas o papel climático é o que mais chama atenção. Ao absorver o carbono das plantas e conduzi-lo para dentro do solo, essas redes retiram da atmosfera o equivalente a 4 bilhões de toneladas de CO₂ por ano — 11% de tudo que a humanidade emite. Sem eles, esse carbono ficaria solto no ar.
Onde estão e por que isso preocupa
Para construir o mapa, os pesquisadores analisaram mais de 16 mil amostras de solo coletadas ao redor do mundo e usaram inteligência artificial para estimar a densidade das redes em regiões nunca antes estudadas. Um robô de alta resolução fotografou mais de 300 mil filamentos crescidos em laboratório para medir sua espessura com precisão. O resultado mostra que as pradarias e campos naturais concentram cerca de 40% de toda essa biomassa fúngica. Lugares como os Everglades, na Flórida, o planalto tibetano e os pântanos do Sudão do Sul têm as maiores densidades do mundo. O problema é que as lavouras agrícolas têm densidades cerca de 50% menores do que esses ambientes naturais. E as pradarias estão sendo convertidas em terras agrícolas quatro vezes mais rápido do que as florestas — com quase nenhuma proteção legal. "Os fungos têm sido ignorados nas políticas climáticas e de conservação por tempo demais", disse Toby Kiers, diretora executiva da organização que liderou o estudo. "Agora é o momento de mudar essa trajetória."



