Absolvidos PMs que mataram jovem rendido em Paraisópolis
Absolvidos PMs que mataram jovem rendido em Paraisópolis

Os cabos da Polícia Militar Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima foram absolvidos nesta quinta-feira, 30, pela morte de Igor de Moraes Santos, de 24 anos, durante uma operação em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, no dia 10 de julho de 2025. A decisão foi tomada por um júri popular no Fórum Criminal da Barra Funda, após três dias de julgamento.

Denúncia e argumentos da defesa

O Ministério Público de São Paulo havia denunciado Torquatto e Noguchi por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. No plenário, a defesa sustentou que os PMs agiram em legítima defesa. “Os policiais agiram em legítima defesa, e as imagens das câmeras não mostram o suficiente para que se possa fazer uma análise”, declarou o advogado João Carlos Campanini. As imagens das câmeras presas às fardas dos policiais registraram a ação e mostram o suspeito rendido, desarmado e com as mãos sobre a cabeça quando foi morto a tiros. As imagens foram apresentadas pela acusação contra os réus durante os três dias de júri popular.

Absolvição e soltura dos policiais

Com a absolvição nesta quinta-feira, 30, os policiais foram soltos automaticamente. Eles estavam presos preventivamente no Presídio Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, desde julho do ano passado. Segundo o advogado João Carlos Campanini, ambos estão aptos a voltar às funções na Polícia Militar. O promotor Marcelo Oliveira, responsável pela acusação, disse respeitar a decisão dos jurados, mas discorda dela por entender que é manifestamente contrária às provas dos autos. O Ministério Público vai recorrer a instâncias superiores.

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Outros acusados e desmembramento do processo

Os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também respondem pelo caso, acusados de colaborar com a ação. O processo em relação aos dois foi desmembrado, e eles serão julgados em outra data.

Relembre o caso

Em 10 de julho de 2025, uma equipe do 16º BPM/M patrulhava Paraisópolis para reprimir o tráfico de drogas quando quatro homens teriam fugido ao ver as motocicletas da Polícia Militar se aproximarem. A perseguição avançou pelas vielas da favela até a Rua Rudolf Lotze, onde os suspeitos se esconderam em uma casa. Os policiais entraram no imóvel às 15h43, e o que aconteceu a partir dali ficou registrado em vídeo e áudio. Os policiais vasculham o local em busca dos suspeitos e avançam pela escada que leva ao andar superior. Um minuto depois, às 15h44, arrombam a porta do quarto e encontram três homens escondidos atrás de uma cama. Todos colocam as mãos atrás da cabeça, em um gesto de rendição. À esquerda da imagem, Igor aparece em pé, encostado na parede, de agasalho branco e braços erguidos.

O cabo Renato Torquatto atira duas vezes contra Igor, mas os tiros não o atingem. As imagens mostram Torquatto gritando para que os suspeitos larguem as armas, embora os três estejam rendidos. Então, ordena que Igor se levante e dispara novamente. Dessa vez, o acerta. No segundo seguinte, o cabo Robson Noguchi também atira contra Igor com uma espingarda calibre 12. Dez segundos depois, os soldados Hugo Reis e Victor de Jesus entram no cômodo e disparam. Nas gravações, é possível ouvir Igor agonizar no chão do quarto. Às 15h47, o cabo Noguchi ordena que os outros suspeitos permaneçam deitados, dizendo que seriam socorridos. Às 15h49, cinco minutos depois dos primeiros tiros, um dos policiais encontra um revólver calibre 38 embaixo da cama.

Os policiais continuam as buscas e colocam a arma sobre a cama da suíte, junto com o que encontram em poder dos homens rendidos: uma pistola calibre 40, outra de 9 milímetros, munições de diferentes calibres e drogas. Nas mochilas, também havia seis celulares e registros da contabilidade do tráfico.

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Ativação das câmeras corporais

Logo depois dos tiros, os PMs foram gravados gritando: “As COP, as COP, as COP”. COP é a sigla de Câmera Operacional Portátil, nome dado pela PM aos equipamentos presos às fardas. Na época, o coronel Emerson Massera, porta-voz da Polícia Militar de São Paulo, explicou que os agentes usavam o modelo novo de câmeras corporais, em que a gravação tem que ser ativada pelo próprio agente. Uma das câmeras foi acionada, o que ativou automaticamente as demais via Bluetooth. Os policiais apresentaram a ocorrência na delegacia como uma troca de tiros, em que os suspeitos reagiram à abordagem. Quando as imagens foram analisadas, os cabos Torquatto e Noguchi foram presos em flagrante.

História de Igor e reação da família

Igor de Moraes Santos nasceu e morou pelos 24 anos de sua vida em Paraisópolis. Assim que tomou conhecimento da perseguição policial, o pai do jovem, Magdo Santos, 48, foi até o local, onde soube que o filho morreu. “Meu filho foi literalmente executado. Eles pensaram que ele não tinha família. Isso me destruiu, destruiu a nossa família”, diz Santos. Na adolescência, Igor foi internado duas vezes na Fundação Casa, uma por tráfico e outra por roubo. Na vida adulta, não teve registros criminais. Segundo a família, ele fazia bicos e contava com a ajuda financeira dos pais. O histórico de delinquência juvenil foi explorado pela defesa como um dos principais argumentos para convencer os jurados a absolver os cabos Torquatto e Noguchi. “É importante dizer que nem todo mundo que tem passagem é ladrão e vagabundo, independentemente do que já passou na vida. A partir do momento que uma pessoa está rendida, ela está em poder do Estado. Então, a obrigação da polícia é prender, não executar, matar”, declarou Magdo Santos, pai de Igor.