Um novo projeto em Santos (SP) vai triplicar a barreira de 500 metros de geotubos submersos que protege a Ponta da Praia da erosão marinha. A estrutura atual ganhará uma extensão de quase 100 metros, e duas novas barreiras, totalizando 900 metros, serão construídas entre os canais 6 e 4 da orla santista. O projeto, elaborado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi aprovado pelo município e está em fase de licenciamento ambiental.
Solução alternativa à engorda de praia
O projeto de Santos para conter o avanço do mar segue na contramão da engorda de praia, método que tem se popularizado no Brasil em cidades como Balneário Camboriú (SC), Florianópolis e Natal. Em vez de adicionar areia sobre a praia, a solução santista utiliza barreiras submersas para reter a areia movimentada naturalmente pelo mar. Com as mudanças climáticas, a erosão costeira deve se agravar no país.
Projeto-piloto e monitoramento
O projeto-piloto, concebido pelos professores Tiago Zenker Gireli e Patrícia Dalsoglio Garcia, do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp, é composto por duas estruturas submersas. A primeira parte da mureta da orla, próxima ao Aquário Municipal, e segue por 275 metros mar adentro, formando uma barreira perpendicular à praia. A outra dá sequência à primeira e se estende paralela ao muro da praia por 240 metros, ambas apoiadas no leito submarino e construídas com geobags — tubos de tecido geotêxtil preenchidos com areia. Desde abril de 2018, quando as estruturas foram implantadas, o projeto é monitorado pela Unicamp.
Conforme Gireli, a faixa de areia havia sido recomposta, mas voltou a recuar porque a barreira de geotubos sofreu afundamento e está a pouco mais de um metro abaixo da linha da água, perdendo parte da eficiência. Segundo ele, o recalque ocorreu devido às características do solo de Santos. Por essa mesma característica de solo instável, alguns prédios da orla santista apresentam inclinação leve.
Devido ao rebaixamento, a linha de geotubos está a 1,1 metro sob a linha da água, e algumas ressacas mais fortes passam sobre ela, atingindo a avenida. Com a nova intervenção, a proteção vai se estender da Ponta da Praia até a divisa entre a Praia do Boqueirão e a Praia do Embaré.
Detalhes do novo projeto
O novo projeto prevê: construção de uma barreira com geotubos de 500 metros de extensão entre o Canal 6 e o Canal 5; construção de uma barreira com geotubos de 400 metros de extensão entre o Canal 5 e o Canal 4; reforma com extensão de mais 82 metros na estrutura de 240 metros em direção ao Canal 6; e reforma na estrutura de 275 metros que sai da mureta e avança para o mar.
De acordo com Gireli, como no projeto-piloto, serão usados geotubos de 30 metros de extensão por 5 de largura, cada um recebendo 300 toneladas de areia. Os geotubos serão alinhados de forma a evitar frestas que permitiriam a fuga de areia, como verificado no piloto. Na altura da vazão dos canais, será deixado um espaço para que a água, que pode carregar poluentes, não fique represada.
Impacto da dragagem portuária
Segundo a prefeitura, a fase inicial do projeto, de R$ 2,9 milhões, foi paga com recurso da indenização ambiental paga pelo Porto de Santos. O município informa que a reforma e ampliação serão feitas dentro do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a Autoridade Portuária de Santos (APS) e o Ministério Público Federal (MPF), decorrente da dragagem do canal. Os valores da nova etapa não foram informados.
O aprofundamento e alargamento do canal de acesso ao porto em 2010 alteraram a hidrodinâmica do estuário, e as correntes de maré que entram e saem da baía passaram a remover sedimento das praias próximas, especialmente da Ponta da Praia. Nas praias mais afetadas houve recuo de até 6 metros por ano, mas a Ponta da Praia recuou 57,4 metros entre 2009 e 2017, resultando no desaparecimento da faixa de areia.
Por que não engorda de praia?
A simples reposição de areia foi descartada. “Como a Ponta da Praia e o Canal do Porto de Santos são sistemas interligados que trocam sedimentos, vimos que não era possível a engorda ali, pois a areia iria para o canal”, diz Gireli. Ele explica que anualmente são removidos 4 milhões de toneladas de areia do canal para mantê-lo na profundidade atual de 15 metros. “Fazer a engorda com areia ali seria só um jeito caro de entulhar o canal e obrigar a uma dragagem maior.”
Outras intervenções convencionais, como muros com blocos de pedra, também foram descartadas devido ao ambiente complexo da Ponta da Praia. “Qualquer impacto não previsto seria extremamente oneroso modificar. Também com as mudanças climáticas, se aquela geometria não fosse a mais adequada, o custo de desmobilização ou reforço seria muito grande”, afirma. A opção foi uma solução baseada na natureza, com a criação de uma espécie de recife artificial, obstáculo eficiente na redução da energia das ondas por arrebentação.
A opção pelos geotubos levou em conta a facilidade do enchimento, com areia da própria praia, e a facilidade de remoção da estrutura. “Se precisar remover é só rasgar o tecido e devolver a areia para o perfil da praia, sem impacto e a custo baixo”, explica Gireli.
Próximos passos
Gireli diz que, na época, os recursos disponíveis não permitiam um projeto para proteger toda a extensão da erosão. “Então fizemos no trecho em que a praia recuava mais de 10 metros por ano e optamos por um projeto-piloto para estudar o comportamento da solução.” Após quase oito anos de observação, a análise é de que o modelo serviu para diminuir a energia das ondas, conter a erosão e armazenar areia no local. O projeto foi aprovado pela APS, pela Secretaria do Meio Ambiente de Santos e pelo Ministério Público. O início das obras depende da conclusão do processo de licenciamento ambiental. Sendo aprovado, será contratada a execução do projeto.



