A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, considerada a construção religiosa mais antiga de Itapetininga (SP), foi reaberta à visitação após mais de dois anos de portas fechadas para reformas emergenciais. O templo, erguido por escravizados no século XIX e símbolo da fé e da cultura negra da cidade, voltou a receber fiéis e visitantes com 90% das obras concluídas, conforme informou o engenheiro responsável, Lucas Arruda.
Reforma emergencial e reabertura parcial
A estrutura da igreja foi interditada pela Defesa Civil em maio de 2024, depois que parte do reboco desabou. O laudo apontou trincas, rachaduras e danos no telhado. Desde então, as missas foram transferidas para a Catedral Nossa Senhora dos Prazeres, a pedido do padre Élcio Roberto de Góes. As melhorias, segundo o mestre de obras Josué Ferreira, concentraram-se no interior: "Começamos pelo contrapiso, que era o emergencial. Regularizamos tudo, fizemos um madeiramento novo. Agora, a segunda fase é mexer por fora, tirando todas as trincas do reboco. A estrutura, em si, está excelente, sem nenhuma trinca na parede mais", detalhou.
Obras 90% concluídas e desembargo em andamento
O engenheiro Lucas Arruda informou que a reforma está 90% concluída e que o espaço já pode ser visitado, embora ainda aguarde o desembargo parcial da Defesa Civil. A rua em frente ao templo permanece interditada. "As pessoas já podem vir aqui e visitar a nova estrutura. Estamos trabalhando para desinterditar a rua. A igreja tem 186 anos e passou por questões naturais do tempo. Removemos tudo o que causava risco e agora estamos com um processo interno na Defesa Civil para fazer o desembargo", explicou. O primeiro laudo com problemas estruturais foi elaborado em 2019.
Impacto para comerciantes e devotos
A reabertura foi recebida com entusiasmo por comerciantes locais e fiéis. Gabriela Moura, proprietária de uma barraca de livros na Praça Rui Barbosa, em frente à igreja, espera que o movimento aumente: "Tanto eu como os comerciantes da praça sentimos falta da visitação, mas também por ser um prédio histórico e importante da cidade. Muitas pessoas vêm até hoje perguntar se a igreja está aberta e, infelizmente, 'dá de cara' na porta fechada. Isso será bom", comentou. A devota Elvira Vieira expressou sua felicidade: "É uma maravilha ver a igreja ficando quase pronta. Minhas amigas sentem muita falta das missas aqui perto e reclamaram bastante quando mudaram as missas de lugar. Fizemos até oração para que desse tudo certo. Estou muito ansiosa para contar às minhas amigas".
153 anos de história, fé e cultura negra
De acordo com a Diocese de Itapetininga, a Igreja Nossa Senhora do Rosário é a construção religiosa mais antiga preservada na cidade. Sua história remonta a antes da construção: em 1770, quando o povoado se tornou vila, já existia um cemitério público no local. Por volta de 1840, começou a ser erguida uma capela de taipa de pilão, a Capela de Santa Cruz, que deu origem à parte posterior da igreja. Uma telha encontrada em reforma de 1934, com a inscrição “enformada em 1840”, confirmou a data. O templo foi oficialmente inaugurado em agosto de 1873, com doações da população e trabalho de pessoas escravizadas, que dedicavam seu tempo de descanso à obra.
Na época, negros não eram aceitos nos mesmos templos que os brancos, e a igreja tornou-se um espaço de acolhimento, passando a ser conhecida como Igreja do Rosário dos Homens Pretos. A construção foi conduzida por Antônio Florêncio de Azevedo, o Mestre Florêncio, que também construiu o Teatro São João. Após a abolição, a igreja continuou como centro de fé e tradições negras, com festas como a de Nossa Senhora do Rosário, em 24 de agosto, e quermesses.



