Em artigo publicado no The Conversation, o professor titular de Biologia Celular da Universidad de Jaén, Francisco José Esteban Ruiz, afirma que a ideia de que traumas "passam" de pais para filhos é atraente, mas ainda não foi comprovada. Segundo ele, a neurociência não demonstrou que herdamos a memória de uma guerra, de uma agressão ou de uma perda sofrida por nossos antepassados. O que a ciência observa até agora é outra coisa: filhos e netos podem ter uma sensibilidade aumentada nos sistemas que regulam o medo e o estresse. Essa transmissão pode ocorrer por meio da convivência familiar, do ambiente pré-natal e, possivelmente, de mecanismos epigenéticos, cuja relevância em seres humanos ainda é debatida.
O que a neurociência sabe sobre herdar um trauma
Do ponto de vista biológico, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) não fica gravado em uma única "área do medo" no cérebro. Estudos de neuroimagem mostram alterações na amígdala, estrutura envolvida na detecção de ameaças, e no córtex pré-frontal, responsável pela regulação das emoções e pela supressão de respostas de medo que deixaram de ser úteis. O hipocampo, por sua vez, ajuda a situar as memórias em seu contexto, permitindo distinguir uma lembrança real de uma reação desproporcional.
Essas regiões fazem parte de redes cerebrais conhecidas como rede de saliência, rede de controle executivo e rede de processamento autorreferencial. Elas trabalham juntas para detectar quais estímulos são relevantes e para ajustar a resposta do corpo à experiência. Os resultados, porém, variam bastante entre pessoas e estudos. Não existe uma assinatura cerebral única do trauma, ou seja, cada cérebro reage de uma maneira particular diante de experiências extremas.
Mais do que isso: as memórias são sustentadas por mudanças de plasticidade em circuitos e conjuntos específicos de neurônios, os chamados engramas. Como essas redes estão localizadas no cérebro de quem viveu o evento — e não nos óvulos ou espermatozoides —, ainda não se conhece nenhum mecanismo biológico capaz de copiar uma cena, uma emoção específica ou uma lembrança autobiográfica do cérebro de um progenitor para o de seu descendente.
Aprendemos com o perigo desde os primeiros meses
O cérebro infantil se desenvolve na interação com outras pessoas. Meninas e meninos aprendem, por imitação e experiência, quais situações devem considerar seguras ou perigosas. Eles observam expressões faciais, posturas, silêncios e aquilo que provoca medo nos adultos. Uma meta-análise citada no artigo mostrou que bebês, ao verem os pais reagirem com medo diante de algo novo, tendem a sentir mais medo e evitar esse estímulo. Os efeitos foram considerados pequenos ou moderados, mas ajudam a entender como alguém que passou por um trauma pode transmitir aos filhos uma sensação maior de perigo ou mais dificuldade para lidar com emoções.
Isso, no entanto, não significa que os filhos inevitavelmente desenvolverão um transtorno. Para que isso aconteça, é preciso uma combinação de fatores: temperamento, influência dos cuidadores, apoio social, experiências posteriores e a capacidade do sistema nervoso de continuar se adaptando. A transmissão de comportamentos de medo é real, mas não determina sozinha o destino emocional de uma criança.
Gravidez e programação pré-natal
Quando a gestante passa por estresse intenso, o organismo pode sofrer alterações hormonais, quadros inflamatórios e mudanças no funcionamento da placenta e do metabolismo. Esses sinais fazem parte do ambiente no qual o cérebro fetal amadurece. Por isso, estudos associam o estresse na gestação a diferenças posteriores na conectividade cerebral, na regulação emocional e na resposta ao estresse da criança.
Entretanto, a ciência indica que os efeitos observados em seres humanos podem variar e é difícil separar o estresse de outros fatores, como a saúde materna, a pobreza, a nutrição e o ambiente após o nascimento. Por isso, Ruiz prefere o termo programação pré-natal a "herança entre gerações". Durante a gravidez, o feto está diretamente exposto às alterações hormonais, metabólicas e imunes que ocorrem no organismo da mãe. Se mais tarde for observada alguma diferença na criança, não se pode afirmar que um sinal biológico foi transmitido de uma geração para outra sem exposição direta.
Epigenética: o que se sabe e o que ainda é incerto
A epigenética estuda mecanismos que regulam a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA, como a metilação. Em animais, há evidências de que sinais ambientais podem afetar os descendentes por meio dos gametas. Comprovar isso em humanos é muito mais difícil, porque genética, gravidez, criação, cultura e condições sociais são transmitidas ao mesmo tempo e não podem ser isoladas facilmente.
Além disso, grande parte das marcas epigenéticas se reorganiza durante a formação dos gametas e o desenvolvimento embrionário. Um estudo publicado no ano passado analisou 131 membros de três gerações de famílias sírias e identificou padrões de metilação associados à exposição à violência. O resultado é chamativo, mas não prova de forma irrefutável que um trauma mental é herdado. Os pesquisadores usaram células bucais, a amostra foi pequena e os próprios autores afirmaram que seria necessária uma validação adicional. Uma marca epigenética pode ser causa, consequência ou simplesmente um indicador de uma exposição.
Herdamos possibilidades, não condenações
A conclusão mais prudente, segundo o professor da Universidad de Jaén, é que não herdamos as memórias traumáticas de nossos antepassados. Podemos receber genes que influenciam nossa sensibilidade ao estresse, sobretudo se a mãe passou por uma gravidez complicada ou se crescemos em uma família que vivia sob perigo. Essa transmissão é real, mas também é real nossa capacidade de adaptação. Ter relacionamentos seguros, melhores condições de vida e acesso a terapias eficazes pode modificar os circuitos do medo.
A biologia transmite possibilidades, não condenações. Ou, como destaca o próprio The Conversation em outro artigo, genes não são destino.



