Renan Santos lança candidatura e apresenta 'Livro Amarelo'
Renan Santos lança candidatura e apresenta 'Livro Amarelo'

Em discurso de mais de uma hora, Renan Santos repetiu que o Brasil não pode continuar vivendo de “remendos” ou de pequenas reformas. Para o presidenciável do recém-criado Partido Missão, a eleição de 2026 representa uma escolha entre manter o modelo atual ou iniciar um novo ciclo de desenvolvimento nacional. A fala, ocorrida neste sábado (1º), serviu para apresentar o Livro Amarelo, documento que, segundo ele, deve funcionar como base doutrinária para “governar, construir e civilizar” o país.

Livro Amarelo: a base da campanha

O documento, descrito por Renan como “a base do que será disputado nas urnas”, não deve ser entendido apenas como um plano de governo. Em sua avaliação, o Livro Amarelo sintetiza um projeto de transformação nacional ancorado em conceitos como desenvolvimento, disciplina, produtividade e construção de uma nova “civilização tropical”. A ideia, segundo ele, envolve reformas econômicas profundas, mudanças institucionais e uma redefinição da posição do Brasil no cenário internacional.

Em vez de organizar o discurso em torno de medidas setoriais, o candidato optou por uma narrativa de rompimento com “os fracassos das últimas décadas”. Ele defendeu que o país abandone soluções graduais e adote mudanças estruturais capazes de alterar o modelo econômico, a cultura e a forma de organização social.

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“Geração do sacrifício” e exemplos asiáticos

Um dos eixos centrais do discurso foi a tentativa de apresentar a candidatura como um projeto voltado para as próximas gerações, e não para resultados imediatos. Renan afirmou que sua geração precisará fazer sacrifícios semelhantes aos realizados por países asiáticos durante seus processos de industrialização. Citando Coreia do Sul e China, disse que o Brasil precisa aceitar um período de esforço para entregar às crianças nascidas a partir de 2027 um país mais desenvolvido do que aquele recebido por seus pais.

Nesse contexto, prometeu um conjunto amplo de transformações:

  • escolas públicas de melhor qualidade;
  • cidades sem favelas;
  • redução da criminalidade;
  • pais presentes na criação dos filhos;
  • geração de empregos formais;
  • crescimento econômico sustentado.

O discurso, porém, dedicou pouco espaço à explicação sobre como essas metas seriam implementadas ou financiadas.

Nem terceira via, nem bolsonarismo

Renan também procurou posicionar sua candidatura fora dos dois principais polos da política nacional. Logo no início do evento, rejeitou a classificação de terceira via e afirmou que o Partido Missão construiu “o próprio caminho, com as próprias ideias”.

Ao mesmo tempo em que responsabilizou o PT pelos problemas econômicos e sociais do país, dirigiu críticas frequentes ao ex-presidente Jair Bolsonaro e, principalmente, ao senador Flávio Bolsonaro (PL), hoje candidato ao Palácio do Planalto. Em um dos momentos mais duros do discurso, chamou Flávio de representante de uma “farsa do bolsonarismo” e disse que a candidatura de Flávio favoreceria uma nova vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A estratégia busca apresentar o Partido Missão como uma alternativa simultaneamente antipetista e antibolsonarista, sem recorrer ao discurso tradicional da chamada terceira via.

Desenvolvimento como eixo organizador

Embora a segurança pública tenha ocupado parte importante da fala, o conceito de desenvolvimento apareceu como o elemento organizador do projeto político. Renan defendeu a reindustrialização do país, ampliação da infraestrutura, exploração de recursos naturais com agregação de valor, fortalecimento da produção nacional e investimentos em tecnologia.

No plano regional, propôs transformar o Nordeste em uma grande zona econômica especial, com geração de empregos, expansão do agronegócio, instalação de data centers e produção de biocombustíveis. Na área cultural, afirmou que o Brasil deveria investir em uma indústria de “soft power”, inspirada no modelo sul-coreano, para exportar produtos culturais e substituir a imagem internacional associada às favelas.

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Uma narrativa acima das propostas

Mais do que apresentar um programa detalhado de governo, o lançamento da candidatura procurou construir uma identidade política baseada na ideia de missão histórica. Expressões como “civilizar”, “construir”, “geração do sacrifício”, “projeto de futuro” e “civilização tropical” apareceram repetidamente durante o discurso, compondo uma narrativa segundo a qual a eleição de 2026 representaria uma escolha entre permanecer no modelo atual ou abrir um novo ciclo de desenvolvimento nacional.

As propostas apresentadas abrangem áreas como economia, segurança, educação, assistência social e infraestrutura, mas, na maior parte dos casos, foram expostas como objetivos amplos, sem detalhamento sobre instrumentos legais, custos ou cronograma de execução. Esse contraste entre a construção de uma narrativa de transformação e a ausência de maior detalhamento programático marcou o tom do evento de lançamento da candidatura.