Uma onda migratória sem precedentes transformou a pequena Ceuta, território espanhol no norte da África, em palco de uma crise humanitária e diplomática. O número de mortos na travessia subiu para 67 e a União Europeia convocou uma reunião de emergência para terça-feira (4). Na manhã deste sábado (1º de agosto), o fluxo se inverteu: centenas de imigrantes foram escoltados para fora do território espanhol, de volta ao Marrocos.
De acordo com o governo da Espanha, cerca de 48 mil pessoas, a maioria homens jovens, retornaram voluntariamente após encontrar uma cidade com portas fechadas — sem abrigo, sem comércio e sem perspectiva de asilo.
Ceuta recebeu 50 mil imigrantes em poucos dias
Ceuta tem pouco mais de 80 mil moradores. A chegada de mais de 50 mil pessoas em questão de horas sobrecarregou os serviços locais e deixou centenas de pessoas dormindo ao relento. Um marroquino contou que viu um vídeo de pessoas atravessando a fronteira e decidiu tentar a sorte. Depois de passar dias sem dinheiro e bebendo apenas água, optou por voltar.
Por que milhares arriscaram a travessia?
O Marrocos não vive uma guerra nem uma crise humanitária, mas os números explicam a insatisfação da juventude: a taxa de desemprego entre os jovens beira os 40% e 1 em cada 4 não trabalha nem estuda. Muitos africanos enxergam Ceuta como uma porta de entrada para a União Europeia. Entre quinta-feira e sexta-feira, milhares vieram pela cidade marroquina de Fnideq. Enquanto uma multidão escalava a cerca da fronteira, outros enfrentaram 5 km no mar, a nado ou em botes infláveis precários.
A resposta espanhola e a crise na UE
Para impedir novas tentativas, as autoridades espanholas instalaram boias de contenção no mar. A medida, porém, é vista como tardia e insuficiente por um representante dos guardas civis de Ceuta. “Não é o suficiente e chega tarde”, disse. O episódio também gerou atrito entre aliados europeus. A Itália chegou a propor a exclusão temporária da Espanha da zona de livre circulação de pessoas do bloco. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou a reação como egoísta, polarizadora e ilegal, e disse que o pedido foi motivado por preconceito, notícias falsas, ignorância ou interesses políticos.
Rumores e disputa política
A causa da avalanche migratória repentina ainda permanece em aberto. O Marrocos não se pronunciou oficialmente. O governo espanhol, por sua vez, afirma que grupos de tráfico humano espalharam rumores pelas redes sociais. Também há relatos de que guardas marroquinos afrouxaram a fiscalização na fronteira. Não seria a primeira vez: em 2021, durante uma disputa política entre os dois países, 10 mil pessoas entraram em Ceuta em dois dias. Tanto naquela ocasião como agora, as cenas caóticas foram usadas para reforçar narrativas políticas.
Especialista vê “tempestade perfeita”
O sociólogo Flávio Carvalho, especialista em migração e há 20 anos na Espanha, afirma que vários fatores se combinaram. “Deu-se a tempestade perfeita. Essa é a explicação mais evidente para as pessoas compreenderem. São primeiro a sentença da semana passada, três dias antes do Supremo Tribunal da Espanha, que determina que não se pode devolver automaticamente as pessoas que consigam atravessar”, diz.
Carvalho também destaca o contexto eleitoral e o uso político do tema. “Nós estamos na iminência de processos eleitorais na Itália, na Espanha, na França, numa região estratégica da Alemanha, para o Senado norte-americano. As pessoas, em função do que assistem na televisão, decidem em quem votar, porque isso é associado estrategicamente a uma questão de segurança ou insegurança”.
O sociólogo ainda aponta a disputa regional. Há duas semanas, o premiê espanhol visitou a Argélia, país que apoia um grupo separatista no Saara Ocidental, território reivindicado pelo Marrocos. “As imagens evidenciam que o governo de Marrocos deliberadamente toma uma posição de afronta a própria União Europeia, quando permite e incentiva que esses jovens, na situação em que estão, tomem a decisão de arriscar as suas vidas pelo sonho europeu”, completa.



