Lula repudia retirada de visto de embaixadora e chama justificativas dos EUA de falsas
Lula repudia retirada de visto de embaixadora e chama EUA de falsos

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva repudiou nesta terça-feira a decisão dos Estados Unidos de retirar o visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Em nota oficial, o Itamaraty classificou as justificativas apresentadas pelo governo americano como "falsas" e "inaceitáveis", e afirmou que a medida configura um ato de retaliação às posições soberanas do Brasil em fóruns internacionais.

Decisão americana surpreende e gera crise diplomática

A retirada do visto foi comunicada ao governo brasileiro na noite de segunda-feira, por meio de nota diplomática. Segundo fontes do Itamaraty, a justificativa americana citou supostas atividades da embaixadora "incompatíveis com seu status diplomático", sem apresentar detalhes ou evidências. A embaixadora Viotti, que está em Washington desde 2023, é considerada uma das diplomatas mais experientes do Brasil, tendo servido como representante do país na ONU e em missões na Europa.

O chanceler Mauro Vieira, em entrevista coletiva, afirmou que o Brasil responderá à altura. "Vamos tomar as medidas cabíveis, incluindo a convocação do encarregado de negócios dos EUA em Brasília para pedir explicações. Essa ação é um desrespeito à nossa soberania e às normas do direito internacional", declarou. Vieira também indicou que o Brasil pode rever a concessão de vistos a diplomatas americanos no país.

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Relações Brasil-EUA em momento delicado

A crise ocorre em um momento de tensão nas relações bilaterais, marcadas por divergências sobre temas como a guerra na Ucrânia, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a política ambiental. O governo Lula tem criticado abertamente o apoio americano a Israel no conflito com o Hamas, e defende uma maior participação de países emergentes em decisões globais.

Nos últimos meses, diplomatas brasileiros relataram um endurecimento do tom por parte do governo americano, que teria demonstrado insatisfação com a posição do Brasil em relação à Venezuela e às eleições naquele país. A retirada do visto da embaixadora é vista por analistas como uma escalada sem precedentes na história recente da relação entre os dois países.

Especialistas veem risco de retaliação e impacto econômico

Especialistas em relações internacionais ouvidos pelo GLOBO avaliam que a medida pode ter impacto negativo no comércio bilateral, que movimentou cerca de US$ 88 bilhões em 2025. "A retirada de visto de uma embaixadora é um ato hostil, que pode levar a uma espiral de retaliações. Isso prejudica o clima de negócios e a cooperação em áreas como energia e tecnologia", disse o professor de Relações Internacionais da UFRJ, Carlos Eduardo Lins da Silva.

O Itamaraty informou que a embaixadora Viotti permanecerá em Washington, mas com status reduzido, e que o Brasil não pretende romper relações diplomáticas. "Queremos resolver essa questão por meio do diálogo, mas não aceitaremos pressões ou ameaças", afirmou o chanceler. A oposição no Congresso também se manifestou, cobrando uma resposta firme do governo.

Histórico de tensões e perspectivas

Desde o retorno de Lula ao poder, em 2023, as relações com os EUA tiveram altos e baixos. Se por um lado houve avanços em áreas como clima e direitos trabalhistas, por outro, as divergências em política externa ficaram mais evidentes. A visita de Lula a Washington em fevereiro de 2023 foi marcada por um encontro com o presidente Joe Biden, mas as conversas não resultaram em acordos concretos.

Diplomatas americanos, sob condição de anonimato, disseram ao GLOBO que a decisão foi tomada em resposta a "ações recentes do Brasil que minaram a confiança", sem dar mais detalhes. A Casa Branca não comentou oficialmente. A expectativa é que o tema domine a agenda bilateral nas próximas semanas, com possíveis encontros entre os chanceleres à margem da Assembleia Geral da ONU, em setembro.

O governo brasileiro já solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para discutir o caso, mas a medida foi vista como simbólica, já que os EUA têm poder de veto. Enquanto isso, a embaixadora Viotti segue trabalhando de forma remota, e a equipe da embaixada opera em ritmo reduzido, aguardando novos desdobramentos.

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