Estudo revela que 60% das checagens de políticos são falsas ou distorcidas
60% das checagens de políticos são falsas ou distorcidas

Seis em cada dez afirmações de políticos e pré-candidatos verificadas pela Agência Lupa apresentaram algum nível de distorção ou inverdade. O dado faz parte do estudo inédito “Anatomia da desinformação eleitoral: Como a mentira e os boatos políticos evoluíram no Brasil entre 2016 e 2026”, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Observatório Lupa.

Análise de mais de 600 conteúdos desde 2016

A pesquisa analisou 632 conteúdos publicados pela Agência Lupa desde 2016, sendo 397 checagens de declarações políticas e 235 verificações de boatos envolvendo eleições. Apenas 34% do total foram considerados totalmente verdadeiros. As checagens abrangeram 237 atores políticos individuais — 176 homens e 61 mulheres — filiados a 37 partidos de diferentes ideologias.

Bolsonaro lidera ranking de declarações falsas

Entre os 23 políticos com mais de 30 frases avaliadas, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve a maior proporção de afirmações classificadas como “Falsas”: 43,2% (102 de 236). Em seguida, aparecem o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (38,9%) e o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella (36,2%).

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Padrões distintos de desinformação entre Lula e Bolsonaro

A análise linguística revelou que a desinformação não se manifesta da mesma forma em todos os campos. As declarações falsas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concentram-se na autoria ou no pioneirismo de políticas públicas. Já Bolsonaro usa informações falsas ao apresentar números, percentuais e estatísticas sobre economia, programas sociais, pandemia e indicadores do governo, além de ataques a adversários com expressões como “nunca”, “jamais”, “nenhum” e “sempre”.

Boatos virais: nove em cada dez são falsos

Dos 286 conteúdos virais sem autoria identificada que circularam nas redes, 90,9% continham informações comprovadamente falsas. O estudo aponta que as mentiras virais usam vídeos, fotos, documentos e áudios para dar falsa autenticidade. O problema muitas vezes está no contexto, não na imagem em si.

Evolução da desinformação: menos mentiras completas, mais contexto enganoso

A desinformação eleitoral passou a depender menos de conteúdos completamente falsos e mais de manipulação, distorção ou retirada de contexto. Em 2024, as postagens falsas ainda dominam (81,5%), mas as classificadas como “falta contexto” somaram 13%. “Isoladamente, esse resultado não permite afirmar que houve uma transformação estrutural na natureza dos boatos eleitorais. Ele, porém, dialoga com a principal hipótese deste estudo: à medida que a desinformação se sofisticou no discurso de atores políticos, também começaram a surgir conteúdos virais baseados em fatos reais apresentados de maneira incompleta, descontextualizada ou deliberadamente enganosa”, destaca trecho do estudo.

Manipulação de pesquisas e urnas

Mais da metade das verificações (58,7%) identificaram conteúdos que manipulavam pesquisas, resultados ou a apuração das urnas para influenciar a percepção sobre a legitimidade do sistema eleitoral.

Três principais alvos dos boatos eleitorais

Os boatos virais organizam-se em três temas: ataques ao sistema eleitoral (73,1%), tentativas de destruir a reputação de candidatos e partidos (66,1%) e manipulação de resultados de pesquisa e urnas (58,7%). Alegações comuns incluem mensagens de que “a urna computou votos errados”, que “o resultado foi manipulado” e que o Tribunal Superior Eleitoral esconde informações.

Migração para ambientes privados

A veiculação de desinformação migrou das redes abertas para aplicativos de mensagem. Em 2018, o Facebook apareceu em 76,5% das verificações; em 2022, o WhatsApp estava em 92,4%; e em 2024, o mensageiro esteve presente em 100% dos casos. “À medida que redes sociais abertas ampliaram seus mecanismos de moderação e passaram a sofrer maior escrutínio público, os conteúdos enganosos migraram para aplicativos de mensagem e outros ambientes privados ou semiprivados”, reforça o estudo.

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Alerta para o impacto da inteligência artificial em 2026

O estudo conclui alertando para o avanço da inteligência artificial nas eleições de 2026. Conteúdos gerados por IA aparecem discretamente nos dados até 2024, mas os pesquisadores afirmam que essas ferramentas terão um impacto significativo a partir do próximo ciclo eleitoral.