Um vídeo que circula nas redes sociais alega que o governo venezuelano "bloqueou" a entrada de voluntários internacionais no país após os terremotos de 24 de junho. No entanto, a checagem do Estadão Verifica concluiu que a afirmação é enganosa. As organizações humanitárias da Espanha, Inglaterra e França, que aparecem na gravação, esclareceram que as autoridades venezuelanas não impediram a entrada ou atuação das equipes. As três entidades conseguiram levar seus voluntários para realizar missões de resgate nas cidades atingidas.
O que mostra o vídeo original
O vídeo viral mostra três representantes de organizações humanitárias da Inglaterra, França e Espanha pedindo ajuda para conseguir um voo para a Venezuela a fim de atuar no resgate de vítimas dos terremotos. Eles explicam que estão parados no aeroporto de Madri com outros socorristas e ferramentas de resgate. Em nenhum momento os voluntários citam que o governo venezuelano bloqueou a entrada deles no país, diferentemente do que foi alegado em postagens no Brasil.
O Verifica identificou as entidades pelos uniformes: o grupo espanhol Busca e Resgate Urbano 13 (U.S.A.R 13), o Grupo Francês de Socorro em Desastres (GSCF) e a associação britânica Server On Busca e Resgate Internacional. A U.S.A.R 13 explicou que a filmagem foi feita em 27 de junho, três dias após os terremotos, e que "em nenhum momento o governo venezuelano proibiu a entrada no país". O GSCF e a Server On confirmaram que não houve bloqueio.
Dificuldades burocráticas, não bloqueio
Por meio de busca reversa, o Verifica descobriu que o vídeo foi originalmente publicado pela voluntária Adriana Yammine Farré, que vive na Espanha. Em seu Instagram, ela compartilhou registros dos brigadistas aguardando o embarque no aeroporto de Madri. Em mensagens à reportagem, ela informou que os voluntários tiveram que esperar documentos de permissão para embarcar. "O consulado forneceu as credenciais assim que enviamos os dados dos socorristas. O único atraso se deu ao fuso horário, já que o consulado venezuelano na Espanha teve que encaminhar as informações para a Venezuela", disse Adriana.
Ela acrescentou que os voluntários receberam a autorização para o embarque e envio de suprimentos médicos. "Estávamos usando voos comerciais e tivemos que pagar pelo excesso de peso." A entidade francesa GSCF esclareceu que as dificuldades "estiveram relacionadas ao fechamento do aeroporto de Caracas, bem como à falta de assistência das companhias aéreas na Espanha, o que complicou nossa viagem para a Venezuela".
Outros relatos de atrasos
No dia 27 de junho, a jornalista venezuelana Goizeder Azúa, que vive na Espanha, compartilhou no Instagram depoimentos de resgatistas espanhóis aguardando por mais de 24 horas as credenciais para embarcar. Na mesma transmissão, um socorrista britânico relatou que o voo previsto para sua equipe havia sido cancelado devido a danos na pista de pouso no destino. O jornal espanhol El Economista noticiou, em 26 de junho, que companhias aéreas suspenderam voos de Madri a Caracas devido aos problemas causados pelos tremores no Aeroporto Internacional Simón Bolívar.
Após 48 horas de espera, Goizeder relatou que as equipes europeias estavam a caminho da Venezuela. Há outros relatos na imprensa de equipes que enfrentaram dificuldades burocráticas. O The Washington Post noticiou que uma equipe dos Estados Unidos demorou cinco dias para conseguir autorização de pouso no país.
Missões de resgate realizadas
A equipe espanhola U.S.A.R 13 compartilhou em seu Instagram registros dos socorristas atuando nas cidades de Caraballeda e La Guaira, locais entre os mais afetados. O cão socorrista, chamado Covid, também contribuiu com as buscas. O grupo britânico Server On registrou o trabalho em La Guaira, usando drones, equipamentos de acústica e cães farejadores para encontrar desaparecidos. O grupo francês GSCF postou fotos dos socorristas na missão de resgate.
O Verifica questionou o consulado da Venezuela na Espanha sobre possíveis atrasos, mas não recebeu retorno. No domingo, 12, o governo venezuelano atualizou o número de mortos nos terremotos para 4.490, com 16.740 feridos e mais de 19.500 pessoas alojadas em acampamentos provisórios.



