A Polícia Federal (PF) acionou a Interpol por meio de uma ferramenta inédita, a "Silver Notice" (Alerta Prata), para rastrear bens e ativos do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa. A medida, confirmada por investigadores ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado, visa mapear o patrimônio milionário que o banqueiro teria espalhado por diversos países, supostamente oriundo de crimes financeiros à frente do Banco Master e de outras instituições do grupo.
Rombo de R$ 52 bilhões e pedido à Interpol
O colapso do conglomerado liderado por Vorcaro deixou um rombo de R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A expectativa dos investigadores é que o empresário possua bens como imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações e aeronaves no exterior, parte dos quais pode estar em paraísos fiscais. A "Silver Notice" é um mecanismo recente da Interpol voltado ao rastreamento internacional de ativos ligados a investigados ou condenados por crimes financeiros. Segundo a PF, as informações obtidas podem subsidiar futuras medidas de bloqueio, confisco e repatriação, caso a Justiça determine a origem ilícita dos bens.
Até o momento, os países-alvo do pedido ainda não informaram quais ativos foram identificados. A PF teme que Vorcaro consiga blindar o patrimônio ao longo do tempo, vendendo propriedades ou transferindo-as para terceiros. A defesa do banqueiro não respondeu aos questionamentos da BBC News Brasil.
Patrimônio milionário e ostentação
Desde que assumiu o comando do Banco Master em 2019, Vorcaro ostentou um padrão de vida luxuoso. Documentos apontam que, em 2021, ele gastou cerca de R$ 5 milhões em uma festa de aniversário para a filha em uma ilha particular nas Bahamas. Em setembro de 2023, realizou uma festa em Taormina, na Sicília, com custo de R$ 363,2 milhões, incluindo a contratação de artistas como Coldplay e Michael Bublé. Dados da Receita Federal de 2024 mostram que Vorcaro declarou um patrimônio de R$ 2,4 bilhões, mas investigadores acreditam que o valor real seja muito superior.
Liquidantes do grupo já identificaram uma mansão avaliada em R$ 180 milhões na Flórida (EUA), que teria sido alvo de tentativa de venda pelo pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, também investigado. A transação foi detectada pelo liquidante EFB Regimes Especiais. No entanto, ainda não há um mapa completo dos ativos no exterior, lacuna que a PF busca preencher com a ajuda da Interpol.
Acordo de colaboração não avançou
A falta de transparência sobre o paradeiro dos bens foi um dos principais entraves para um acordo de colaboração premiada entre Vorcaro, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR). Segundo investigadores, o banqueiro não teria colaborado com a localização de seu patrimônio, o que inviabilizou o acordo. Vorcaro permanece preso em uma penitenciária de Brasília.
Em paralelo, a Justiça dos Estados Unidos já autorizou o liquidante do banco a consultar instituições financeiras norte-americanas em busca de ativos, incluindo imóveis, fundos de investimento e obras de arte.
Cronologia da Operação Compliance Zero
A primeira fase da operação foi deflagrada em 18 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso e o Banco Central determinou a liquidação do Master e de outras duas instituições. Ele foi solto no fim de novembro por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), mas preso novamente em março de 2026, na terceira fase da operação. A investigação apura crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo a tentativa de venda de ativos supervalorizados do Master ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões, além de captação irregular de investimentos de fundos de previdência de servidores públicos (RPPS).
Relações com políticos e ministros do STF
As investigações alcançaram supostas relações de Vorcaro com políticos e integrantes do Judiciário. O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso no STF em fevereiro, após questionamentos sobre sua ligação com uma empresa familiar que vendeu participação a um fundo controlado pelo cunhado do banqueiro. Toffoli negou qualquer relação com Vorcaro. O ministro André Mendonça assumiu a relatoria.
O ministro Alexandre de Moraes também foi alvo de questionamentos após reportagens sobre um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, além de supostas trocas de mensagens com Vorcaro. O STF negou que Moraes tenha tratado do Banco Master com o Banco Central e afirmou que as mensagens atribuídas a ele não conferem com seus contatos.
Senadores como Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também são investigados. No caso de Ciro, a PF apura suposta vantagem econômica em troca de emenda parlamentar. Jaques Wagner é investigado por suposta ligação com ex-sócio de Vorcaro e um apartamento de R$ 2,5 milhões. Flávio Bolsonaro teria pedido US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) a Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, o que ele nega ser ilegal. Todos os envolvidos negam irregularidades.



