Ex-ministro de Bolsonaro recebeu R$ 11 mi de banco de Daniel Vorcaro
Ex-ministro de Bolsonaro recebeu R$ 11 mi de banco de Vorcaro

O ex-ministro da Cidadania Ronaldo Vieira Bento teria recebido R$ 11 milhões do Banco Master e de empresas vinculadas ao conglomerado de Daniel Vorcaro após deixar o governo Jair Bolsonaro. Os repasses foram revelados pelo Intercept Brasil com base em documentos fiscais encaminhados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado do Senado.

Pagamentos e empresas envolvidas

Segundo a reportagem, os pagamentos ocorreram ao longo de dois anos e envolveram tanto transferências diretas ao ex-ministro quanto recursos destinados a empresas nas quais ele exercia funções de sócio ou administrador. A maior parcela identificada foi direcionada à Meta Consultoria, empresa criada em junho de 2023 e da qual Bento é sócio. De acordo com os documentos obtidos pelo Intercept, a companhia recebeu cerca de R$ 6,2 milhões em 2025. Outros R$ 773,3 mil foram pagos diretamente ao ex-ministro como pessoa física.

Em nota enviada ao veículo, a assessoria de Ronaldo Bento afirmou que os valores correspondem à remuneração por serviços efetivamente prestados ao grupo e que todas as operações foram declaradas às autoridades fiscais. “A remuneração, devidamente declarada ao fisco, é compatível com os valores do mercado. Não há qualquer irregularidade nas operações citadas”, informou.

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Do Ministério para empresas do grupo

Bento ocupou o Ministério da Cidadania entre março e dezembro de 2022, período em que participou da regulamentação do empréstimo consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. Após deixar a Esplanada, passou a integrar empresas ligadas ao grupo financeiro associado a Daniel Vorcaro. Entre elas estava o Banco Pleno, onde exerceu a função de diretor-presidente, e a Mettacard Administradora de Cartões. A Mettacard atuava com produtos de crédito consignado voltados a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Segundo o Intercept, a empresa recebeu R$ 2,98 milhões do Banco Master durante o período em que Bento ocupava cargo de administrador.

Banco Central interveio no Banco Pleno

Em fevereiro deste ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno. A medida foi fundamentada em problemas de liquidez, deterioração financeira, descumprimento de normas regulatórias e desobediência a determinações da autoridade monetária. A decisão também tornou indisponíveis os bens de antigos administradores e controladores da instituição, incluindo Ronaldo Bento, segundo a reportagem.

A atuação da Mettacard também chamou a atenção de órgãos públicos e entidades sindicais. Segundo o Intercept, a companhia mantinha convênios com prefeituras, institutos de previdência e órgãos estaduais para operar descontos em folha relacionados a cartões consignados. Em novembro do ano passado, o governo do Paraná suspendeu novos descontos vinculados aos cartões da Mettacard e da Credcesta. A justificativa foi a necessidade de proteger servidores diante de suspeitas de irregularidades e descontos indevidos.

Entidades representativas de servidores relataram casos de endividamento associados ao produto. O Sindicato dos Servidores da Agricultura do Paraná (Sindiseab), por exemplo, afirmou que muitos funcionários aderiram ao cartão diante da dificuldade de acesso a outras modalidades de crédito.

Consignado do Auxílio Brasil volta ao debate

O crédito consignado para beneficiários do Auxílio Brasil foi autorizado em 2022 e passou a ser defendido pelo então ministro como instrumento de combate à pobreza. Meses depois, porém, uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU), divulgada em agosto de 2023, identificou R$ 8,4 milhões em descontos considerados indevidos em contratos firmados com a Caixa Econômica Federal. O tema foi alvo de críticas da oposição. Em entrevista ao Intercept, o deputado Rogério Correia (PT-MG) afirmou que a medida contribuiu para o endividamento de famílias de baixa renda durante o período eleitoral de 2022.

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Pedidos de investigação não avançaram

De acordo com o Intercept, requerimentos para ouvir Ronaldo Bento em comissões do Congresso acabaram não prosperando. Solicitações apresentadas tanto na CPMI do INSS quanto na CPI do Crime Organizado foram arquivadas ou perderam força sem que o ex-ministro prestasse depoimento. As revelações surgem em meio ao aprofundamento das investigações sobre o grupo de Daniel Vorcaro, alvo de sucessivas fases da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras, monitoramento ilegal de pessoas e uso indevido de estruturas empresariais.