O ex-auditor fiscal Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como "PP", fechou um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) no âmbito das investigações que apuram um esquema bilionário de pagamento de propinas dentro da Secretaria da Fazenda do Estado (Sefaz-SP). O esquema envolvia a manipulação de créditos de ICMS para beneficiar grandes empresas, como a Ultrafarma e a Fastshop, em troca de subornos milionários.
O papel de PP no esquema
Segundo o MP-SP, Paulo Sérgio Siqueira do Prado atuava como um elo entre os dois principais investigados: Artur Gomes da Silva Neto, apelidado de "rei Artur" ou "King", e Alberto Toshio Murakami, conhecido como "americano". Artur está preso desde a Operação Ícaro, em agosto de 2025, enquanto Murakami encontra-se foragido, com mandado de prisão e inclusão na lista vermelha da Interpol, vivendo nos Estados Unidos. PP, que se aposentou em 2024, ocupou cargos de destaque na Receita Estadual de São Paulo, incluindo inspetor fiscal na Delegacia Regional Tributária da Capital e substituto na chefia da Delegacia Regional Tributária da Capital II.
Operações que desmantelaram o esquema
As suspeitas de corrupção na Sefaz-SP levaram o Grupo de Atuação Especial de Combate aos Delitos Econômicos (Gedec) do MP-SP a deflagrar três operações. A Operação Ícaro, em 2 de agosto de 2025, revelou suposto favorecimento às empresas Ultrafarma e Fast Shop, com propinas que ultrapassaram R$ 1 bilhão. A operação prendeu Artur Gomes e os empresários Sidney Oliveira, fundador da Ultrafarma, e Mário Otávio Gomes, diretor estatutário da Fast Shop. Em 13 de março de 2026, a Operação Mágico de Oz cumpriu 20 mandados de busca e apreensão e duas prisões temporárias, afastando auditores fiscais e o vice-prefeito de Tupi Paulista. Já a Operação Fisco Paralelo, em 26 de março de 2026, executou 22 mandados de busca em São Paulo, Campinas, Vinhedo e São José dos Campos, mirando servidores de unidades estratégicas da Sefaz-SP, como as Delegacias Regionais Tributárias da Lapa, Butantã, ABCD e Osasco.
Benefícios da delação e próximos passos
Com a homologação da delação de PP, a Justiça deve determinar o desbloqueio e o levantamento do sequestro de bens e restrições patrimoniais impostas ao ex-auditor no início das investigações. A expectativa dos promotores é que PP ajude a desvendar a participação de cada um dos 40 servidores públicos da Sefaz-SP investigados nas três operações. De acordo com a apuração do g1, Paulo Sérgio era muito conhecido dentro do governo de SP e ligado à Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo (Afresp). Os promotores avaliam que a delação pode ampliar o alcance das investigações dentro da pasta.
Os principais investigados
Artur Gomes da Silva Neto, o "King", é apontado como um dos mentores da organização criminosa, responsável por articular a distribuição de processos administrativos entre auditores para favorecer empresas em troca de propina. Segundo a denúncia do MP-SP, Artur teria recebido R$ 383,6 milhões em propinas e movimentado mais de R$ 1 bilhão. Alberto Toshio Murakami, o "americano", atuava na Delegacia Regional Tributária III (Butantã), emitindo pareceres favoráveis para acelerar a liberação de créditos de ICMS em troca de suborno. Ele é considerado foragido desde agosto de 2025. A Ultrafarma, por exemplo, recebeu R$ 327 milhões em restituições indevidas, conforme o MP-SP. Em abril de 2026, o secretário da Fazenda e Planejamento, Samuel Kinoshita, demitiu cinco auditores envolvidos.



