O repúdio da sociedade à corrupção, evidenciado pelos episódios do roubo dos aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e agora no megaescândalo do Banco Master, atravessa todo o espectro ideológico. Eleitores de esquerda, direita e centro condenam fraudes contra aposentados vulneráveis ou as centenas de bilhões envolvidos nos desvios e subornos de Vorcaro. Toda a sociedade está indignada.
A divisão política diante da punição
No entanto, os políticos se dividem quanto à punição dos ladrões. O caso Master busca refúgio na ampliação do rol dos envolvidos, na esperança de atingir os intocáveis e assim passar batido. O relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que pedia indiciamento de mais de 200 pessoas – incluindo Lulinha e ex-ministros de Lula e Bolsonaro –, foi rejeitado por 19 votos a 12 e a comissão foi encerrada sem documento final. Como explicar esse afastamento do sentimento popular e esse inacreditável apego a posturas contrárias aos mais elementares princípios do legítimo interesse público?
O equilíbrio delicado da democracia representativa
A democracia representativa vive de um equilíbrio delicado: o eleitor delega poder a alguém que, em seu nome, deve interpretar a realidade e agir com responsabilidade. Não se trata apenas de reproduzir preferências estáticas expressadas nas campanhas eleitorais, mas de acompanhá-las à medida que os fatos mudam. Esse vínculo do político com o eleitorado depende de uma sintonia dinâmica entre a evolução dos fatos e a capacidade do sistema político de absorvê-los. Quando essa sintonia se rompe, surge uma falha estrutural no processo democrático de representação.
A falha de sincronização entre sociedade e representação
O episódio da rejeição do parecer da CPMI do INSS não é apenas mais um capítulo da disputa política cotidiana. Ele expõe, de forma quase didática, essa falha de sincronização entre a sociedade e a sua representação. Diante de fatos como esse, que mobilizam a opinião pública, o sistema político mostrou-se incapaz de produzir uma resposta que acompanhasse a percepção social. Não se trata aqui de julgar o mérito específico das acusações, mas de observar a dinâmica: enquanto a rejeição popular ao ocorrido domina todo o espectro ideológico e partidário, a política hesita, recua ou se reorganiza para não a incorporar plenamente. A democracia representativa falha.
O eleitor e o representante: velocidades diferentes
O eleitor vive imerso num fluxo contínuo de informações. Ele reage, revisa posições, ajusta e até muda de opinião. Ainda que mantenha inclinações ideológicas, sua percepção é permeável aos fatos. Escândalos, evidências, crises econômicas ou morais produzem efeitos rápidos. O eleitor não precisa preservar coerência pública nem sustentar alianças formais. Sua principal obrigação é consigo mesmo: ajustar sua visão do mundo àquilo que percebe como verdadeiro; no caso do INSS, seu visceral repúdio ao roubo dos aposentados.
O representante, por outro lado, opera num ambiente de restrições. Ele carrega compromissos partidários, acordos políticos e custos reputacionais acumulados. Mudar de posição não é apenas uma revisão intelectual; é um risco estratégico. Cada deslocamento pode ser interpretado como fraqueza, traição ou oportunismo. Por isso, o sistema político tende à inércia. Ele se ancora no momento da eleição, que funciona como uma fotografia congelada das preferências sociais, enquanto o eleitor já se move num filme em constante transformação. Essa diferença de velocidade cria uma defasagem inevitável que transforma a representação numa espécie de encenação.
A fantasia representativa
O representante constrói, ao longo do tempo, uma identidade política relativamente estável. Essa identidade inclui discurso, valores, promessas, inimigos e alianças. No entanto, quando a realidade muda de forma abrupta, essa identidade pode se tornar uma prisão. O representante passa a operar dentro de um papel rígido, incapaz de absorver novos fatos sem desorganizar sua própria posição. Surge então o que se pode chamar de fantasia representativa: uma estrutura que preserva a coerência do ator político, mas o afasta do mundo real. No caso do INSS, a sociedade, em todo o espectro político, fica enojada com a corrupção, mas seus representantes não resistem ao ímpeto de acobertá-la. As decisões são tomadas, os discursos são proferidos, as votações ocorrem – mas tudo isso acontece com base numa realidade parcialmente negada ou reinterpretada. O vínculo representativo perde substância, torna-se uma fantasia. A rejeição do parecer na CPMI indica uma dificuldade de produzir uma síntese reconhecida como legítima. O tempo de ajuste do eleitor à realidade dos fatos é curto; o tempo de ajuste do sistema político é longo. Entre esses dois ritmos, abre-se um intervalo crítico – um vácuo de representação.
O vácuo de representação e suas consequências
Nesse intervalo, a realidade já mudou, o eleitor já percebeu, mas o sistema ainda não reagiu. É quando a balança política perde seu equilíbrio e pende, subitamente, a favor dos que se encontram no lado certo da história.
No caso do PT, de alas do Centrão e do governo Lula, o episódio do INSS pode ser interpretado à luz desse modelo. Quanto maior for a percepção de que o sistema resiste a incorporar plenamente os fatos, maior tende a aumentar o custo político acumulado. Se o sistema responde com rigidez, ele não apenas se afasta do eleitor; ele perde a capacidade de acompanhá-lo. E uma democracia que não acompanha sua própria sociedade corre o risco de se tornar uma forma sem conteúdo.



