Tarifa dos EUA sobre Brasil: impacto eleitoral e fiscal, diz Sharma
Tarifa dos EUA sobre Brasil: impacto eleitoral e fiscal

O estrategista global Ruchir Sharma, chairman da Rockefeller International e colunista do Financial Times, avalia que a tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros tem impacto direto limitado, mas pode influenciar a corrida eleitoral de 2026 e o investimento estrangeiro. Em entrevista à BBC News Brasil, ele discute os efeitos da medida, o cenário fiscal sob Lula ou Flávio Bolsonaro, a fragilidade estrutural da China e a bolha de inteligência artificial.

Impacto direto limitado, mas sinalização preocupante

A tarifa de 25% incide sobre cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras, mas, com isenções, o efeito efetivo é mais estreito. "O risco maior é de segunda ordem: o impacto sobre o investimento estrangeiro direto e o fato de que esta é a segunda tentativa de Trump de usar tarifas como alavancagem sobre o Brasil em 13 meses", afirma Sharma. Ele ressalta que a relação está "estruturalmente contestada" pelo governo americano.

Efeitos eleitorais e a disputa de 2026

Sharma aponta que a narrativa de soberania de Lula pode funcionar a seu favor, mas seus índices de aprovação estão pressionados pelo custo de vida e crescimento fraco. "Se a economia não reagir, essa vantagem pode não se sustentar." Uma vitória de Flávio Bolsonaro criaria pressão para concessões rápidas em regulação digital em troca da retirada das tarifas. "A leitura política favorece Lula no curto prazo, mas a pressão econômica para negociar com Washington independe de quem vença."

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América Latina e o desempenho dos mercados

O estrategista destaca que historicamente os investidores obtêm retornos maiores sob governos de direita na América Latina. "Nos primeiros dois anos de um novo governo, quando a esquerda chega ao poder, o retorno tende a ser de cerca de 16%. Quando é a direita, esse número sobe para mais do dobro — cerca de 37%." Ele afirma que o Brasil é central nessa dinâmica e que a eleição de 2026 pode ser "a mais importante do mundo".

Risco fiscal e reação dos investidores

Sharma alerta que a situação fiscal do Brasil é delicada. "Se Lula for reeleito, a reação inicial dos investidores será negativa. Mas acredito que ele saberá que, se tentar gastar demais, haverá fuga de capitais." Ele ressalta que o controle do Senado e da Câmara importa, e que "não há espaço para irresponsabilidade fiscal agora, em um momento em que a atenção global à dinâmica da dívida é muito maior do que era dez ou vinte anos atrás".

China: fragilidades além da tecnologia

Para Sharma, a China enfrenta desafios demográficos, altos níveis de dívida e um Estado intervencionista que sufoca o empreendedorismo. "A proporção de estrangeiros vivendo no país é de 0,1% da população, a mais baixa entre os grandes países do mundo. E o capital estrangeiro está saindo." Ele adverte que o Brasil, cada vez mais dependente do comércio com a China, corre riscos: "Depender demais da China para crescer é uma estratégia arriscada, porque a demanda doméstica chinesa está em declínio."

Bolha de IA e riscos globais

O estrategista vê a IA como uma tecnologia poderosa, mas alerta para uma bolha. "O gasto global com infraestrutura de IA este ano é algo em torno de US$ 2,5 trilhões, mais de 2% do PIB global." Ele usa o modelo dos quatro 'O's (sobrevalorização, concentração excessiva, sobreendividamento e sobreinvestimento) para identificar a bolha. "Estamos nos estágios avançados desta bolha e podemos estar próximos do fim, mas é difícil prever quando."

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