Progressismo enfrenta estagnação ao essencializar lutas sociais, diz professor da USP
Progressismo estagna ao essencializar lutas sociais, diz USP

O progressismo contemporâneo enfrenta uma crise de estagnação ao transformar lutas sociais em identidades fixas e inquestionáveis, segundo análise do professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado. Em artigo publicado recentemente, o acadêmico argumenta que a fusão entre grupos oprimidos, movimentos sociais e políticas públicas gerou um ambiente no qual criticar um movimento equivale a atacar as pessoas que ele representa, inviabilizando o debate público.

Essencialismo estratégico e lugar de fala

Ortellado aponta que conceitos como “lugar de fala” e “essencialismo estratégico” foram originalmente desenvolvidos para dar voz a grupos historicamente silenciados, mas acabaram sendo simplificados e radicalizados. “O que era uma ferramenta temporária para fortalecer demandas políticas se transformou em uma barreira permanente ao diálogo”, afirma o professor. Na prática, qualquer crítica a pautas ou métodos de movimentos sociais é interpretada como desrespeito à identidade dos indivíduos, criando um círculo de proteção que impede a autocrítica e a adaptação.

Isolamento e cultura de nicho

Esse fenômeno, segundo Ortellado, tem afastado o progressismo da maioria da sociedade. “O movimento se torna uma cultura de nicho, estagnada e incapaz de dialogar com quem não compartilha integralmente de seus pressupostos”, escreve. O resultado é um isolamento político que enfraquece a capacidade de influenciar políticas públicas e ampliar bases de apoio. O professor cita exemplos de pautas que, ao serem tratadas como dogmas, perderam adesão popular e geraram reações conservadoras.

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Impactos no debate público

A essencialização das lutas também afeta a qualidade do debate democrático. Ortellado observa que, quando movimentos se tornam inquestionáveis, a sociedade perde a oportunidade de discutir nuances e buscar consensos. “A política exige negociação e concessões, mas o essencialismo transforma cada questão em um teste de lealdade”, conclui. Para ele, a saída é resgatar o caráter instrumental desses conceitos, permitindo críticas construtivas sem desrespeitar as pessoas oprimidas.

O artigo de Pablo Ortellado, publicado na coluna de opinião de um grande jornal, é exclusivo para assinantes e reacende o debate sobre os rumos do ativismo progressista no Brasil e no mundo.

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