Lula usa gesto obsceno ao anunciar próteses dentárias; Rubem Fonseca ecoa
Lula usa gesto obsceno ao anunciar próteses dentárias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva causou polêmica ao anunciar, em evento no Palácio do Planalto, a compra de scanners e impressoras 3D para fabricar próteses dentárias pelo programa Brasil Sorridente. Durante o discurso, Lula ergueu o dedo médio e disse: “É chique mesmo, porque nós precisamos acabar com essa história de que o pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles”. Em seguida, completou: “Nós gostamos de coisa boa. Nós queremos tudo de primeira. É comida de primeira, roupa de primeira, viajar de primeira, dentista de primeira, médico de primeira”.

Reações e contexto

A atitude gerou críticas nas redes sociais, mas não é a primeira vez que o presidente aborda o tema odontológico com linguagem contundente. No início do terceiro mandato, Lula defendeu que dentistas visitassem escolas para orientar crianças sobre saúde bucal. “Para que a gente possa sonhar com uma sociedade daqui a 20 ou 30 anos em que as pessoas possam comer carne, comer castanha, possam sorrir, possam até arrumar namorado”, afirmou. E continuou: “Porque ninguém vai querer namorar uma moça que não tenha dente na frente, e muito menos ela vai querer namorar um rapaz que não tenha dente na frente. Por que é que a gente tem vergonha de falar essas coisas que são a realidade?”.

No ano passado, Lula disse ter ficado “muito nervoso” ao ver uma mulher de 40 anos sem dentes: “É uma falta de vergonha, é porque o programa (Brasil Sorridente) não está funcionando a contento”.

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Paralelo com Rubem Fonseca

As falas do presidente lembram a obra do escritor Rubem Fonseca (1925-2020), que frequentemente abordou a falta de dentes como símbolo de desigualdade. Em “O Cobrador” (1979), um homem revoltado com a sociedade inicia uma série de crimes após se recusar a pagar o dentista. “Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito”, diz o personagem, que lista dívidas como sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, namorada, sorvete, respeito, filé mignon e aparelho de som.

Em “Dias dos Namorados” (1975), o advogado Mandrake examina a boca de uma mulher e constata: “Você tem todos os dentes? (...) Coisas de rico”. Já em “Intestino Grosso” (1975), um escritor confessa: “Sou (pornográfico), os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes”.

Dados sobre saúde bucal no Brasil

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 33% da população com 18 anos ou mais usava algum tipo de prótese dentária, e 8,9% não tinha nenhum dente na boca. Entre os idosos, os números são ainda maiores, refletindo a falta de acesso a serviços odontológicos no passado.

Embora o gesto de Lula tenha sido considerado vulgar, a indignação com a falta de dentes é legítima. Rubem Fonseca, se vivo, talvez respondesse que obscena é a ausência de dentes no Brasil, não a reação do presidente.

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