O jornalista João Gabriel de Lima lança o livro A Direita à Direita da Direita, fruto de anos de pesquisa sobre os movimentos de extrema direita no Brasil e na Europa. A obra propõe uma leitura sobre a fragmentação da política contemporânea e os desafios impostos à democracia, a partir de reflexões desenvolvidas em seu mestrado e doutorado, além de reportagens publicadas, principalmente, na revista piauí.
Diagnóstico de Eugênio Bucci
No prefácio, o jornalista Eugênio Bucci resume o diagnóstico: “O que vivemos é pior, mais complexo e mais difícil”. A frase sintetiza o alerta do autor sobre a natureza dos novos movimentos de ultradireita, que não se organizam de forma estruturada, mas se reconhecem mutuamente como pares.
Para João Gabriel, o elo entre esses movimentos não está em uma organização comum, mas no reconhecimento mútuo entre seus integrantes. “Não é um movimento estruturado, mas um movimento que reconhece o outro como um par, como um semelhante”, explica o autor. Essa característica, segundo ele, é o que permite a proliferação de grupos de extrema direita em diferentes países, sem uma pauta única, mas com forte solidariedade entre si.
Exemplos internacionais e a teoria da substituição
A obra dialoga com exemplos europeus, como o caso de Portugal, onde o movimento começou com ataques aos ciganos e migrou para a agenda contra a corrupção. Há também a chamada teoria da substituição, defendida pela extrema direita, que alega que a população branca europeia está sendo substituída por imigrantes do Oriente Médio e da África.
Além da Europa, o autor analisa fenômenos como o bolsonarismo, no Brasil, e o trumpismo, nos Estados Unidos. Apesar das diferenças contextuais, todos compartilham essa lógica de reconhecimento e apoio mútuo, o que os torna um desafio para as democracias ocidentais.
O caso brasileiro na pesquisa
Um episódio curioso marcou a pesquisa de João Gabriel sobre o Brasil. Contratado por um veículo de comunicação de Portugal para cobrir a disputa presidencial de 2022, ele solicitou os planos de governo dos quatro principais candidatos: Simone Tebet, Ciro Gomes, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
Da campanha de Lula e Tebet, recebeu “dois livrões”, como definiu. De Ciro, um material mais modesto, mas que incluía um livro escrito pelo próprio candidato. Já da campanha de Bolsonaro, a resposta foi inusitada: “Eles mandaram um powerpoint”. Sem alternativas, o autor contratou estudantes no Brasil para, a partir das entrevistas do então presidente, elaborar o plano de governo que ele nunca apresentou formalmente.
Implicações para a democracia
O livro de João Gabriel de Lima chega em um momento em que o avanço da extrema direita é tema central no debate público global. A obra não apenas mapeia esses movimentos, mas também propõe uma reflexão sobre como a democracia pode responder a esse fenômeno fragmentado e, ao mesmo tempo, interconectado.
Com uma abordagem que combina análise acadêmica e jornalismo investigativo, A Direita à Direita da Direita se torna leitura essencial para compreender as novas dinâmicas políticas que desafiam instituições e valores democráticos em diversas partes do mundo.



