Ex-diretor do BC critica comunicação do Copom e vê riscos para o dólar
Ex-diretor do BC critica comunicação do Copom e vê riscos para o dólar

O ex-diretor do Banco Central José Júlio Senna afirmou que a autoridade monetária enfrenta um desafio de curto prazo para esclarecer pontos do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) que não ficaram claros. Para ele, o BC brasileiro postergou para agosto a decisão sobre como calibrar a política monetária. Na quarta-feira, 17, o Copom reduziu a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,25%.

Decisão postergada

“Eu acho que ficou claro que o Banco Central postergou a decisão, a decisão mais pesada, de como calibrar a política monetária, de maneira a promover a convergência da inflação para a meta e não sacrificar excessivamente a atividade econômica”, diz Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) e consultor associado da 4intelligence.

Sem clareza sobre a estratégia, Senna alerta para possível pressão no dólar, especialmente porque o Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) indicou postura mais dura, e sobre as expectativas de inflação.

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“A magnitude total do ciclo, de quantas vezes vai cair o juro, não está definida ainda. É o futuro que vai dizer. Ficou tudo muito em aberto”, afirma. “É importante para o Banco Central esclarecer isso, de preferência, o quanto antes.”

Principais dúvidas

Senna aponta que o comunicado deixou muitas dúvidas. A primeira é que o BC diz que a política monetária necessária para convergência da inflação levaria a uma situação em agosto de projetar a inflação do primeiro trimestre de 2028 abaixo da meta, o que ele não quer.

Segundo simulações da 4intelligence, com a Selic constante, a projeção de inflação para o quarto trimestre de 2027 é de 3,3%, acima da meta de 3%. Isso implicaria, na visão dele, aumento da Selic, não corte. “Não era para cair o juro, seria para subir o juro caso ele quisesse fazer a convergência agora”, explica.

Trajetórias alternativas

O Copom sinaliza que vai avaliar trajetórias alternativas de Selic que gerem convergência da inflação sem prejudicar a atividade econômica. “Na verdade, o que o Banco Central fez foi postergar a decisão para a reunião de agosto”, diz Senna. Ele ressalta que a indefinição pode ter consequências importantes, como pressão no dólar e piora das expectativas de inflação.

Senna destaca que, enquanto o Fed sinalizou austeridade, o BC brasileiro deu uma mensagem de afrouxamento, com corte de juros e postergação da decisão. Isso pode estimular o fortalecimento do dólar e a depreciação do real.

Oportunidades de esclarecimento

O ex-diretor considera que o BC precisa esclarecer esses pontos o quanto antes. Na semana seguinte, dia 25, o presidente Gabriel Galípolo e o diretor Paulo Picchetti participarão de entrevista coletiva sobre o relatório de política monetária, e no dia 23 sai a ata do Copom. “São duas oportunidades que poderão esclarecer qual é, de fato, a estratégia da política monetária no Brasil”, afirma.

Senna também aponta que a inflação na margem vem subindo: de 2,5% em dezembro para 7,5% em maio, o que não seria compatível com queda de juros nem com postergação da decisão principal. Ele critica a ênfase excessiva no grau de aperto da política monetária, lembrando que juros altos não necessariamente significam política contracionista. “O melhor critério é o resultado. Se as projeções de inflação estivessem na meta, a política estaria calibrada corretamente. Agora, não dá para dizer que é contracionista quando as projeções estão superiores à meta”, conclui.

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