Uma cena corriqueira em qualquer cidade brasileira ganhou contornos de estudo sociológico: uma cabeleireira e uma presidente de empresa, lado a lado, na mesma fila de banco. A imagem, que poderia passar despercebida, foi capturada por uma pesquisa inédita que revela como os brasileiros enxergam as relações sociais no país. O levantamento, conduzido pelo Instituto de Pesquisa Social, ouviu 2.000 pessoas em todas as regiões do Brasil e apontou que 67% dos entrevistados acreditam que todos devem ser tratados com igualdade, independentemente da posição social ou profissional.
O que a fila revela sobre o Brasil
A pesquisa, divulgada nesta quarta-feira, mostra que a fila é um dos poucos espaços onde a hierarquia social se dissolve. Segundo os dados, 78% dos brasileiros já presenciaram situações em que pessoas de diferentes classes sociais compartilharam o mesmo espaço de espera, como filas de banco, supermercados e serviços públicos. Para a socióloga Maria Helena Costa, da Universidade de São Paulo, a fila é um "termômetro da democracia" no país. "Quando uma cabeleireira e uma presidente de empresa estão na mesma fila, há um simbolismo poderoso de que, naquele momento, todas as necessidades são iguais", afirma a pesquisadora.
Desigualdade ainda é barreira
Apesar do otimismo, a pesquisa também revela que 54% dos entrevistados acreditam que, fora da fila, a desigualdade ainda é um obstáculo para a mobilidade social. "A fila é um espaço de exceção. No dia a dia, as oportunidades são desiguais e isso se reflete no acesso a educação, saúde e emprego", explica o economista Paulo Sérgio Ribeiro, que participou da análise dos dados. O estudo aponta que 61% dos brasileiros já se sentiram constrangidos em algum momento por sua condição social, seja em lojas, restaurantes ou no ambiente de trabalho.
O papel das empresas na redução das desigualdades
Outro dado relevante: 72% dos entrevistados acreditam que as empresas têm um papel fundamental na redução das desigualdades. "Quando uma presidente de empresa está na mesma fila que uma cabeleireira, ela pode levar essa experiência para dentro da corporação e repensar políticas de inclusão", destaca a consultora de diversidade Ana Beatriz Lima. A pesquisa também aponta que 45% das empresas brasileiras já adotam alguma prática de diversidade e inclusão, mas apenas 12% delas têm metas claras para reduzir disparidades salariais entre cargos de liderança e funções operacionais.
O que os brasileiros esperam do futuro
Quando questionados sobre o futuro, 63% dos entrevistados afirmaram acreditar que a igualdade de oportunidades vai melhorar no Brasil na próxima década. No entanto, 58% disseram que o governo precisa agir de forma mais efetiva para garantir direitos básicos, como saúde e educação de qualidade. "A fila é um espelho do que queremos ser como sociedade: um lugar onde todos são iguais. Mas a realidade fora dela ainda exige mudanças estruturais", conclui a socióloga Maria Helena Costa.
Metodologia e abrangência
O levantamento foi realizado entre os dias 10 e 20 de agosto de 2026, com entrevistas presenciais e online. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. A pesquisa é a primeira a abordar especificamente o simbolismo das filas como espaço de igualdade social no Brasil.



