A violência como projeto: a análise de Miriam Leitão
A violência como projeto: análise de Miriam Leitão

Em agosto de 2026, uma coluna de Miriam Leitão no Globo trouxe à tona uma tese incômoda: a de que a violência deixou de ser apenas um problema de segurança pública e passou a funcionar como um projeto deliberado de poder. O texto, intitulado "A violência como projeto", argumenta que a escalada da criminalidade e a atuação de grupos armados não são fenômenos espontâneos, mas sim resultados de escolhas políticas e de uma arquitetura que permite a convivência entre o Estado e o crime organizado. A autora parte da premissa de que, em um país com dimensões continentais e desigualdades históricas, o crime encontrou espaço para se institucionalizar em várias regiões.

Para a colunista, a violência é um negócio lucrativo que movimenta quantias vultosas por ano, envolvendo desde o tráfico de drogas e armas até a cobrança de "taxas de proteção" ilegais. Esse sistema parasita se beneficia da fragilidade das instituições e da ausência de políticas públicas efetivas. Em vez de combater essas estruturas, alguns governos optam por ignorá-las ou até mesmo por conviver com elas, quando não integram essas redes de ilegalidade.

A tese central

A tese central do artigo é que a violência não é um acidente de percurso, mas uma ferramenta de dominação. Ela serve para silenciar opositores, controlar territórios e extrair renda da população. O crime organizado, segundo Leitão, age de forma parecida com um Estado paralelo, com seus próprios códigos, tributação e justiceiros. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas aqui assume proporções alarmantes, afetando a qualidade da democracia e o desenvolvimento econômico.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Miriam Leitão observa que o discurso bélico adotado por algumas gestões — com ênfase em armamento da população e endurecimento penal — serve mais para ampliar a sensação de insegurança e justificar ações arbitrárias do que para resolver as causas da criminalidade. Para ela, a abordagem meramente reativa ignora as dimensões social e econômica que alimentam o ciclo da violência. A redução da maioridade penal e o aumento das penas, defendidos por setores conservadores, não enfrentam o problema de fundo.

Efeitos sobre a sociedade

O texto também aborda os efeitos perversos desse projeto sobre a sociedade. Comunidades inteiras vivem sob o domínio do crime, sem acesso a serviços básicos e com o direito de ir e vir restringido. A economia local sofre com a informalidade forçada e com o peso da extorsão. A educação e a saúde entram em colapso em áreas onde o Estado perdeu o monopólio da força. Crianças crescem sem perspectivas, e a violência se torna parte do cotidiano, naturalizando a barbárie.

A coluna aponta que a violência se converte, ainda, em moeda de troca eleitoral. O medo da população é explorado por candidatos que prometem soluções milagrosas, enquanto o crime organizado financia campanhas e elege representantes nos poderes Executivo e Legislativo. Essa conexão perversa entre o ilegal e o político é, na visão da autora, o coração do problema. A letalidade das operações policiais, muitas vezes celebrada como eficiência, escancara a seletividade do sistema.

Seletividade e criminalização

Outro ponto importante da análise é a seletividade do sistema de justiça. Certos tipos de crime são tratados com rigor, enquanto outros, como os praticados por milícias e por agentes do Estado, encontram enorme tolerância. Essa disparidade revela quem são os alvos preferenciais do aparato repressivo e quais grupos estão imunes à investigação. A própria noção de "inimigo interno" é usada para justificar violações de direitos humanos.

A coluna menciona ainda a criminalização das lideranças comunitárias e dos movimentos sociais, que muitas vezes são silenciados por denunciar o avanço do crime. Para Leitão, a proteção seletiva por parte do Estado não é um acidente, mas uma escolha política que aprofunda a desigualdade e a violência estrutural. A imprensa, nesse contexto, tem papel crucial ao pautar o tema e cobrar transparência, mas também pode ser cooptada por interesses escusos.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Caminhos para desarticular o projeto

Na reta final do artigo, a autora sugere que enfrentar a violência exige coragem para desmontar as estruturas que a sustentam. Isso passa por uma reforma profunda nas polícias, com controle externo e investimento em inteligência; por políticas de prevenção que priorizem a juventude; e pelo combate sistemático à lavagem de dinheiro e à corrupção que alimenta os grupos armados. A integração entre União, estados e municípios é fundamental, assim como a cooperação internacional no rastreamento de armas e drogas.

Leitão defende que não há solução mágica. O caminho é longo e exige persistência. É necessário recuperar territórios ocupados pelo crime, mas com presença de serviços públicos, não apenas com operações repressivas. A construção de moradias, a regularização fundiária e a oferta de trabalho são tão importantes quanto o enfrentamento armado. A sociedade civil, por sua vez, precisa pressionar por políticas baseadas em evidências e rejeitar discursos que estimulam a violência.

Miriam Leitão conclui que a sociedade não pode aceitar a violência como destino. É preciso enxergá-la como projeto para desarticulá-la. A democracia brasileira, alerta a colunista, está em jogo enquanto o medo for usado como ferramenta de dominação. O Brasil precisa escolher entre conviver com a barbárie ou construir um futuro em que a segurança seja um direito de todos, e não um privilégio de poucos.