Crise migratória em Ceuta: 72 mortos e tensão na Europa
Crise em Ceuta: 72 mortos e tensão na Europa

Pelo menos 72 migrantes morreram após tentar entrar a nado no enclave espanhol de Ceuta na semana passada, em uma das maiores ondas migratórias já registradas na região. Os corpos foram retirados do mar, onde flutuavam ao lado de boias abandonadas, enquanto a maioria das dezenas de milhares de pessoas que conseguiram chegar já foi escoltada de volta ao Marrocos por soldados e policiais espanhóis.

Uma crise que abalou a Europa

O episódio expôs mais uma vez as profundas divisões na União Europeia sobre a questão migratória, um tema extremamente sensível no continente. A crise também levantou dúvidas sobre o que teria provocado o fluxo repentino: se foi uma campanha viral nas redes sociais prometendo um caminho fácil para a Europa ou se houve uma ação premeditada por trás.

Vídeos que circularam amplamente mostram migrantes marroquinos chegando a nado às praias de Ceuta, muitos deles com coletes salva-vidas improvisados e boias. As imagens chocaram a opinião pública e acenderam um alerta em toda a Europa.

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Reações políticas e críticas

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), criticou duramente a resposta de outros países do bloco, acusando alguns membros de "atacarem" a Espanha em vez de oferecer apoio. A referência direta foi à Itália, cujo partido de direita radical Fratelli d'Italia, da primeira-ministra Giorgia Meloni, publicou imagens dos migrantes correndo pelas ruas de Ceuta com a legenda: "Este é o modelo Sanchez que a esquerda italiana tanto aprecia".

Meloni anunciou a suspensão do acordo de Schengen entre a Itália e a Espanha, que garante a livre circulação de pessoas, alegando uma ameaça à segurança. A medida enfureceu o governo espanhol, que argumenta que a crise foi controlada e que Ceuta não faz parte do espaço Schengen, impossibilitando que os migrantes avançassem para a Europa continental sem serem contidos antes.

Segundo analistas, Meloni sabe disso, mas enfrenta eleições no próximo ano e sua coalizão vem perdendo terreno para um partido novo e fortemente anti-imigração. A crise em Ceuta foi uma oportunidade para demonstrar força e recuperar votos, e ela a aproveitou.

Espanha branda demais?

A Itália não está sozinha na visão de que a Espanha é leniente em relação à imigração. O pedido de Meloni para uma reunião urgente de ministros do Interior da UE, marcada para terça-feira (4), foi assinado por quase duas dezenas de chefes de Estado do bloco, que pedem a eliminação de todas as políticas que sejam "fatores de atração" para a Europa.

Entre essas políticas está a controversa medida da Espanha de permitir que centenas de milhares de imigrantes indocumentados solicitem autorizações de residência e de trabalho, regularizando sua situação. O governo espanhol defende a medida com argumentos pragmáticos: a Espanha está envelhecendo e precisa de trabalhadores.

No entanto, aqueles que invadiram as praias de Ceuta não estavam pensando nessa política, que já não está mais em vigor. Sánchez afirma que o motivo real das chegadas seria uma decisão recente do Supremo Tribunal de Justiça da Espanha, que impede a repulsão imediata de quem entra pelo mar. O primeiro-ministro argumenta que essa informação foi deturpada por traficantes de pessoas para prometer um caminho fácil para a Europa.

Redes sociais e desinformação

A multidão que se dirigia a Ceuta não precisou pagar contrabandistas, pois a maioria era marroquina e a rota é bem conhecida. A mensagem sobre a decisão da Justiça espanhola se espalhou rapidamente pela internet. Migrantes mostraram a repórteres publicações em redes sociais com pessoas gritando "A Espanha está aberta".

Diversos relatos verificados mostram jovens em trajes de mergulho e nadadeiras ou já nadando, além de fotos tiradas já em Ceuta. Algumas das contas online estão ativas há apenas algumas semanas e várias têm dezenas de milhares de curtidas. Mas todas as promessas nas postagens eram falsas.

As multidões que chegaram a beijar a costa em Ceuta com alegria não encontraram nada. Sem comida nem abrigo, e sem como chegar à Europa continental, a maioria rapidamente retornou.

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Quem se beneficia?

Resta a pergunta: os migrantes foram usados politicamente, como aconteceu há alguns anos em Belarus? Se sim, quem estaria por trás? Por enquanto, só se percebe quem foram os beneficiados. A direita global está "transbordando de felicidade", como escreveu a jornalista Andrea Rizzi no jornal espanhol El País.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, — irritado com a Espanha por se opor à sua guerra contra o Irã — usou palavras como "catástrofe" e "invasão". Assim como Meloni, ele tem eleições se aproximando. A Rússia também comemora, já que adora o caos e a divisão na Europa, qualquer coisa para enfraquecer os aliados da Ucrânia.

Quanto a Marrocos, o país culpa "organizações criminosas", mas seus guardas de fronteira certamente viram as multidões se formando. A última vez que algo semelhante aconteceu, embora em menor escala, foi quando Espanha e Marrocos entraram em conflito por causa do Saara Ocidental, uma antiga colônia. Há novas tensões no ar neste momento.

Sánchez nega veementemente que o Marrocos tenha sido culpado, dizendo que o governo marroquino é "um bom aliado". Mas seus críticos dizem que ele está apenas apaziguando os ânimos e que deveria ser mais agressivo.

Resultados e medidas

Por enquanto, a Espanha está empenhada em proteger Ceuta contra novos incidentes. O governo está estendendo a cerca da fronteira até o mar, fixando longas fileiras de boias laranjas no cais, que serão patrulhadas por navios para impedir que pessoas cheguem a nado.

Na reunião de ministros do Interior da UE, deve-se discutir o reforço das fronteiras externas, o que dará impulso à direita populista. Viajantes da Espanha para a Itália estão sujeitos a verificações aleatórias de documentos pela polícia durante algumas semanas. Portanto, nenhuma grande mudança.

Exceto pelas dezenas de jovens que partiram para o mar, perseguindo uma visão que viram online, e que agora estão sendo enviados de volta para Marrocos em caixões.