Brasil sem embaixador na Argentina após ataques de Milei
Brasil sem embaixador na Argentina após ataques de Milei

Nesta segunda-feira (3), o Brasil completa uma semana sem embaixador em Buenos Aires. O diplomata Julio Bitelli foi chamado de volta a Brasília em caráter emergencial e, desde então, participou de três reuniões com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A medida é considerada rara na diplomacia brasileira e é interpretada como um sinal de crise na relação bilateral.

O gesto ocorre em um dos momentos mais delicados da relação entre os dois países nos últimos anos. A movimentação de recolher um embaixador, em vez de apenas emitir uma nota de protesto, indica a insatisfação do Planalto com o comportamento do governo argentino.

O que motivou a crise

O episódio que detonou o estremecimento foi a participação do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Durante o evento, Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "presidiário" e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de "lixo careca". As falas causaram reação imediata do Itamaraty e deram início a um movimento de afastamento entre os dois governos.

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A convenção do PL, realizada em São Paulo, transformou-se em palanque para ataques ao governo Lula. Milei, além dos xingamentos, fez um discurso contra o "socialismo" e reclamou do fato de não ter podido visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro durante a passagem pelo Brasil. O encontro com Flávio Bolsonaro, oficializado como candidato à Presidência, reforçou o alinhamento entre o bolsonarismo e o presidente argentino.

Reação do governo brasileiro

O governo brasileiro respondeu publicamente aos ataques. Lula classificou as declarações de Milei como "patacoada" e, ao ser questionado sobre o presidente argentino, reagiu com ironia: "Quem é esse cara?". Internamente, integrantes do Itamaraty avaliam que, na ausência de novos ataques de Milei, a tendência é que o embaixador brasileiro retorne a Buenos Aires em breve.

A avaliação dos diplomatas, no entanto, é que o ambiente segue delicado. A convocação de Bitelli para Brasília não é um gesto usual e indica que o Palácio do Planalto pretende endurecer a resposta à hostilidade de Milei. A volta do embaixador dependerá da sinalização de que as agressões verbais não vão se repetir.

Crise com o Paraguai

Ao mesmo tempo, o Brasil enfrenta outro atrito diplomático na região, desta vez com o Paraguai. A crise nasceu de uma declaração de Lula, que afirmou que o país vizinho "invadiu" o Brasil e que isso teria levado à declaração da Guerra do Paraguai. O governo paraguaio, liderado por Santiago Peña, convocou o embaixador brasileiro em Assunção para prestar esclarecimentos.

A situação coloca o Brasil em rota de colisão com dois dos três países da Tríplice Fronteira ao mesmo tempo. Os atritos têm origens distintas, mas convergem para um cenário de maior dificuldade de diálogo diplomático na América do Sul.

Podcast O Assunto analisa o cenário

O podcast diário do g1, O Assunto, dedicou um episódio ao tema. Victor Boyadjian conversou com o jornalista Ariel Palacios, correspondente da Globo e da GloboNews para a América Latina, direto de Buenos Aires. Palacios reconstitui o histórico diplomático entre os países da Tríplice Fronteira e explica as razões que levaram à atual crise entre Brasil, Argentina e Paraguai.

Na entrevista, o correspondente analisa ainda a afinidade ideológica entre Javier Milei e outros governantes da região, incluindo o bolsonarismo, e como essa aliança tem influenciado as declarações públicas e as decisões políticas. O episódio busca contextualizar a crise para além dos ataques verbais, mostrando o cenário geopolítico mais amplo.

O programa também lista outros desdobramentos importantes do conflito. Entre eles, estão a reação do STF às palavras de Milei, classificadas pelo presidente da corte como "incompatíveis com a civilidade entre países"; a análise sobre o decreto de Milei para expulsar estrangeiros por "ódio" à Argentina e as potenciais dificuldades jurídicas da medida; e a conversa telefônica entre Lula e o presidente da China, Xi Jinping, que tratou de um acordo do Mercosul com o país asiático. Outro tema abordado é a crise de identidade do Mercosul em um contexto de mudanças globais.

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Números de audiência do podcast

O episódio integra a trajetória de sucesso do O Assunto. Desde a estreia, em agosto de 2019, o podcast diário do g1 já acumula mais de 168 milhões de downloads em todas as plataformas de áudio. No YouTube, o canal do programa soma mais de 14,2 milhões de visualizações, consolidando-se como um dos principais produtos jornalísticos em áudio do país.

A crise diplomática em curso é acompanhada de perto pelo Itamaraty, que tenta equilibrar a defesa das instituições brasileiras com a necessidade de preservar canais de diálogo com vizinhos estratégicos. O desfecho do impasse com a Argentina e com o Paraguai deve marcar a política externa brasileira nas próximas semanas.