Em um funeral coletivo realizado nesta terça-feira, palestinos enterraram os corpos de mais de 100 vítimas de um ataque israelense ocorrido em 2023 na Faixa de Gaza. Os restos mortais foram recuperados dos escombros de um quarteirão residencial no bairro de Sabra, na Cidade de Gaza, destruído por aviões de guerra em 22 de novembro de 2023, poucas semanas após o início da guerra com o Hamas.
Ataque devastador e recuperação tardia
O ataque aéreo matou mais de 300 pessoas, tornando-se um dos mais letais do conflito. Na época, cerca de 40 corpos foram resgatados em uma busca desesperada, feita com ferramentas improvisadas e as próprias mãos. A maioria das vítimas, no entanto, permaneceu soterrada sob os escombros por mais de um ano, devido ao caos e à violência que se seguiram.
Somente neste fim de semana, equipes de resgate conseguiram escavar os prédios destruídos e recuperar os restos mortais de 112 vítimas, incluindo 40 crianças, conforme a Defesa Civil de Gaza, agência vinculada ao Ministério do Interior administrado pelo Hamas. Ainda segundo a Defesa Civil, outros 157 corpos seguem desaparecidos sob os escombros.
Dor e memória das famílias
Taysir al-Hassayna, parente das vítimas, expressou a dor das famílias após as orações fúnebres: "O único crime desses mártires foi permanecer firmes e resistentes em suas casas, acreditando que essas casas os protegeriam". Sobre os desaparecidos, ele afirmou que é "como se seus corpos tivessem evaporado sem deixar vestígios".
As vítimas homenageadas viviam em um quarteirão pertencente aos clãs Hassayna e Abu Sharia, muitas delas parentes entre si. A Associated Press identificou pelo menos 60 famílias em Gaza que perderam 25 ou mais integrantes nos três primeiros meses da guerra.
Cessar-fogo permite recuperação de corpos
O cessar-fogo, em vigor desde outubro, permitiu que equipes de resgate atuassem em partes da devastada Faixa de Gaza, recuperando corpos de pessoas mortas nos primeiros meses do conflito. Os corpos encontrados contribuíram para o aumento do número oficial de mortos na guerra.
O ataque liderado pelo Hamas ao sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, matou cerca de 1.200 pessoas e resultou no sequestro de 251 reféns. Em resposta, a ofensiva israelense matou cerca de 73.377 palestinos, incluindo vítimas registradas desde o início do cessar-fogo, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
Números alarmantes de desaparecidos
Pelo menos 7.400 pessoas ainda são consideradas soterradas sob os escombros, segundo relatos de familiares, informou Zaher al-Waheidi, chefe do departamento de registros do ministério, à Associated Press. Ele alertou que o número real pode ser milhares maior, pois em alguns casos famílias inteiras morreram em um único bombardeio, sem deixar sobreviventes para comunicar os desaparecimentos.
Nesta terça-feira, os restos mortais das vítimas, envoltos em bandeiras palestinas, foram colocados em fileiras no chão. Muitos estavam identificados com fotografias, e pétalas de flores foram espalhadas sobre todos os corpos. Centenas de pessoas participaram das orações fúnebres, algumas em pé sobre os escombros. Depois da cerimônia, os corpos foram carregados em macas por uma rua estreita cercada por prédios destruídos e enterrados em um cemitério próximo.
Desafios da reconstrução e violações do cessar-fogo
O cessar-fogo interrompeu grande parte dos combates, mas ao menos 1.252 pessoas foram mortas em Gaza desde sua entrada em vigor, segundo o Ministério da Saúde do território. O órgão, que integra o governo liderado pelo Hamas, mantém registros detalhados de vítimas considerados, em geral, confiáveis por agências da ONU e especialistas independentes. O ministério não diferencia civis e combatentes, mas afirma que mulheres e crianças representam a maioria dos mortos.
Israel afirma que seus ataques têm como alvo militantes que colocam soldados israelenses em risco, participaram do ataque de 7 de outubro ou cometeram outras violações. Cinco soldados israelenses morreram desde o início do cessar-fogo.
Gaza continua amplamente devastada. A maior parte dos 2 milhões de palestinos permanece deslocada e vive em acampamentos de tendas, onde as más condições e a superlotação provocaram infestações de roedores e surtos de doenças infecciosas, como catapora.
Tensões e negociações em curso
Os dois lados acusam um ao outro de violar o cessar-fogo, e as negociações sobre os próximos passos avançaram pouco. O Hamas manteve suas armas, apesar dos acordos de desarmamento, e o Exército israelense se recusou a se retirar, permanecendo no controle de mais da metade do território.
Na segunda-feira, Nikolay Mladenov, representante do Conselho de Paz responsável pela transição pós-guerra em Gaza, reuniu-se com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para discutir, entre outros temas, um novo acordo de desarmamento que o conselho, criado pelos Estados Unidos, afirma ter fechado com o Hamas. Na semana passada, o presidente Donald Trump anunciou um acordo que prevê que Israel cesse suas operações militares em Gaza e que o Hamas e seus aliados interrompam todas as atividades militantes. Após a divulgação do texto do acordo, Israel afirmou ter "sérias preocupações de segurança".



