Um ataque da Ucrânia contra um navio comercial do Irã no Mar Cáspio, no sábado (25), matou um marinheiro e feriu outro, elevando as tensões entre os dois países e reacendendo o debate sobre uma possível fusão das guerras no Oriente Médio e no Leste Europeu. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou no domingo (26) que a ação "não pode ficar sem resposta", enquanto Teerã classificou o ataque como "hostil e criminoso" e alertou para "consequências imprevisíveis".
Irã acusa Ucrânia e Israel
O governo iraniano acusou Kiev de tentar expandir a guerra na Ucrânia e de agir a mando de Israel. "Zelensky atacou uma embarcação comercial iraniana, matando um marinheiro. Uma violação flagrante da Carta da ONU, cometida a mando de Israel para arrastar a Europa para a guerra israelense", publicou Araghchi em suas redes sociais, citando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou a ofensiva como "absolutamente ilegal e injustificável".
No mesmo dia do ataque, Zelensky afirmou que a Rússia está fornecendo ao Irã informações obtidas por satélite sobre posições militares no Oriente Médio, incluindo quatro bases: duas no Bahrein, uma na Jordânia e outra no Kuwait. Nas últimas semanas, o Irã lançou ataques contra alvos dos Estados Unidos nesses três países. Na segunda-feira (27), Donald Trump disse que questionará o presidente russo, Vladimir Putin, sobre a denúncia ucraniana.
Conflitos já têm pontos de contato
As guerras na Ucrânia e contra o Irã já compartilham elementos desde o início da invasão russa, em 2022. Moscou utiliza drones fabricados pelo Irã, como o Shahed-136, para atacar alvos ucranianos. Kiev, por sua vez, usa sistemas de defesa fornecidos pelos EUA para interceptá-los. Quando Estados Unidos e Israel lançaram a guerra contra o Irã em fevereiro deste ano, a Ucrânia ofereceu ajuda para interceptar drones iranianos no Oriente Médio, citando sua experiência.
Na semana passada, a agência Reuters revelou que os EUA têm indícios de que a Rússia ajudou o Irã a atacar instalações da inteligência americana, atingindo ao menos duas bases da CIA em março. Autoridades afirmaram à Reuters que a Rússia auxiliou o Irã a aumentar a precisão de drones e a escolher alvos. O presidente ucraniano também acusou a Rússia de compartilhar dados de satélite para planejar ataques iranianos.
Especialistas veem baixa probabilidade de fusão
Para Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais, a unificação das guerras é improvável porque nenhum dos atores quer pagar o preço dela. "O que vemos é cada governo instrumentalizando o vínculo entre as guerras sem jamais assumi-lo por inteiro", afirma. Segundo ele, a União Europeia tenta convencer Trump de que pressionar a Rússia enfraqueceria o Irã, mas recusa qualquer papel da Otan contra Teerã. O Irã, por sua vez, retrata a Ucrânia como instrumento de Israel para dividir o Ocidente, enquanto a Rússia dosa o apoio ao Irã para desgastar os EUA em uma estratégia de "caos administrado".
Fancelli avalia que uma guerra unificada exigiria concessões que os principais atores não estão dispostos a fazer: a Europa perderia autonomia, Trump colocaria em risco o diálogo com Putin, e o Irã aumentaria a ameaça ao próprio regime. "O principal seguro contra a guerra única é o egoísmo de todos os envolvidos. Cada um lucra mais com duas guerras acopladas do que com uma guerra só", conclui. No entanto, ele alerta que o ataque ucraniano ao navio iraniano mostrou que a escalada pode sair do controle. Se o Irã retaliar, os aliados de cada lado poderão ser pressionados a demonstrar até onde vão apoiar seus parceiros. "É nessa linha tênue, e apenas nela, que as duas guerras podem virar uma. Não por projeto de ninguém, mas provavelmente por um acidente de todos."



