A conquista da Eurocopa de 2026 pela seleção da Espanha proporcionou à Europa uma rara vitória geopolítica, em um cenário internacional marcado por tensões e rivalidades. O torneio, realizado entre junho e julho, não apenas coroou o futebol espanhol, mas também serviu como um palco para a projeção de poder e unidade do continente europeu, conforme analistas ouvidos pelo jornal Valor.
Um triunfo simbólico em tempos de crise
Em um momento em que a Europa enfrenta desafios internos e externos, desde a guerra na Ucrânia até as disputas comerciais com a China e os Estados Unidos, o futebol emergiu como um instrumento de soft power. A vitória espanhola, com um placar de 3 a 1 sobre a Inglaterra na final realizada em Wembley, foi celebrada como uma demonstração de coesão e vitalidade do continente.
Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade de Lisboa, António Costa, “o futebol é uma das poucas áreas em que a Europa ainda consegue competir de igual para igual com as superpotências globais. A Eurocopa não é apenas um evento esportivo; é uma vitrine geopolítica que reforça a imagem de um continente unido e influente”.
Impacto na percepção global
A conquista espanhola também teve repercussões na percepção global sobre a Europa. Dados do instituto de pesquisa Eurobarometer indicam que a aprovação da União Europeia entre os cidadãos dos países membros subiu para 62%, um aumento de 5 pontos percentuais em relação ao ano anterior, parcialmente atribuído ao clima de euforia esportiva.
Além disso, a transmissão do torneio para mais de 200 países, com audiência acumulada de 5 bilhões de espectadores, reforçou a presença midiática europeia. Especialistas apontam que isso contribui para a promoção de valores como fair play e cooperação, que são caros à identidade europeia.
Rivalidades e unidade
Apesar das rivalidades históricas entre as seleções, como a que opõe Espanha e Inglaterra, o torneio também evidenciou a capacidade de organização conjunta. A final foi realizada em Londres, mas a cerimônia de abertura ocorreu em Munique, e as partidas foram distribuídas por dez cidades de países diferentes, o que exigiu uma coordenação logística sem precedentes.
Para a analista política do European Council on Foreign Relations, Sofia Martins, “a Eurocopa demonstrou que a Europa pode atuar de forma integrada, mesmo em áreas onde a soberania nacional é sensível, como o esporte. Isso envia um sinal positivo para outras frentes de cooperação, como a defesa e a política externa”.
O futebol como ferramenta diplomática
O uso do futebol como ferramenta diplomática não é novo, mas ganhou novos contornos com a globalização. Líderes europeus, como o presidente da França, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Olaf Scholz, usaram o torneio para realizar encontros bilaterais à margem das partidas, aproveitando o ambiente descontraído para avançar em agendas políticas.
Em um artigo recente, o jornal britânico The Guardian destacou que “o futebol proporciona à Europa uma rara vitória geopolítica, em um momento em que sua influência é contestada em várias frentes”. O texto ressalta que, enquanto a Europa perde espaço econômico para a Ásia e enfrenta a assertividade russa, o esporte oferece uma oportunidade de reafirmar sua relevância no cenário mundial.
Desafios futuros
No entanto, especialistas alertam que a euforia esportiva não deve mascarar os problemas estruturais do continente. A crise energética, a inflação elevada e o envelhecimento populacional continuam a desafiar a Europa, e o futebol não pode ser visto como uma solução permanente para questões geopolíticas.
Ainda assim, a vitória espanhola na Eurocopa de 2026 ficará marcada como um momento de rara união e sucesso em um continente que busca seu lugar em um mundo cada vez mais multipolar. Como concluiu o professor António Costa, “o futebol mostra que, quando se unem, os europeus ainda são capazes de conquistar o mundo”.



