A Espanha manifestou oposição à proposta da Itália de enviar imigrantes ilegais na União Europeia para centros de deportação em países terceiros. A declaração foi feita pelo ministro do Interior espanhol nesta terça-feira (4), após reunião do bloco para tratar da crise migratória em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. A reunião ocorreu depois que dezenas de milhares de migrantes africanos entraram ilegalmente a nado ou contornando barreiras, vindos do Marrocos, gerando uma crise política na UE.
Crise em Ceuta: o que aconteceu?
A crise começou na quinta-feira passada (30), quando cerca de 60 mil pessoas tentaram chegar a Ceuta a nado ou pela fronteira marítima. Segundo o Ministro do Interior francês, a travessia resultou em 75 mortos, a maioria afogada no Mediterrâneo. Equipes de busca ainda recuperam corpos na água, enquanto polícia e Exército reforçam a vigilância nas ruas e praias do enclave.
A Espanha afirma ter estabilizado a situação após devolver grande parte dos migrantes ao Marrocos. Ainda assim, entre 3 mil e 5 mil pessoas permanecem em Ceuta, muitas dormindo ao relento em praias vigiadas, com centros de acolhimento superlotados. A presença de menores desacompanhados agravou o impasse humanitário: autoridades locais estimam 862 crianças e adolescentes migrantes em Ceuta, protegidos por lei contra deportação. Dois centros de acolhimento, um para adultos e outro para menores, entraram em colapso.
Medidas de contenção e barreira marítima
Para impedir novas entradas, a Guarda Civil espanhola instalou uma barreira flutuante de aproximadamente 500 metros no mar, criando uma espécie de fronteira marítima temporária no ponto usado por milhares de migrantes. A estrutura visa desencorajar tentativas de travessia.
A crise também gerou disputa política na UE. A Itália suspendeu por um mês a livre circulação com a Espanha no Espaço Schengen, retomando controles em viagens aéreas e marítimas. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, criticou a medida, acusando governos europeus de reação egoísta e polarizadora. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, agradeceu à Espanha pela atuação e defendeu maior reforço das fronteiras externas do bloco, com vigilância, barreiras físicas e apoio da Frontex.
Impacto político e discurso anti-imigração
Segundo a colunista do g1 Sandra Cohen, o caos em Ceuta fortaleceu o discurso anti-imigração, fornecendo munição a partidos de direita e extrema direita na Europa e nos Estados Unidos. As imagens da travessia e do desespero dos migrantes passaram a ser exploradas politicamente, associando imigração a medo e insegurança, isolando Sánchez em momento de pressão sobre a política migratória espanhola.



