A volatilidade das moedas de mercados emergentes caiu ao menor nível desde o início do ano, o que voltou a impulsionar as operações de carry trade, especialmente aquelas envolvendo moedas da América Latina, vistas como as que oferecem os retornos mais atraentes.
A região oferece taxas de juros mais elevadas do que a maioria de seus pares entre os países em desenvolvimento, o que permite aos investidores obter lucro adicional em operações que consistem em tomar empréstimos onde os juros são baixos e investir onde há um prêmio de rentabilidade. As moedas latino-americanas também são as mais atraentes entre os mercados emergentes segundo uma métrica amplamente utilizada por operadores: a relação entre carry e risco.
América Latina se beneficia da escalada do conflito no Oriente Médio
A América Latina oferece ainda um benefício adicional em meio à nova escalada da guerra com o Irã: muitos países da região são exportadores de petróleo, o que significa que estão relativamente protegidos do impacto de preços mais altos da commodity.
“As moedas latino-americanas estão mais uma vez se mostrando algumas das de melhor desempenho no mercado cambial”, disse Chris Turner, diretor global de mercados e chefe regional de pesquisa para o Reino Unido e Europa Central e Oriental do ING Bank NV, em Londres. “A baixa volatilidade cambial está direcionando recursos de carry trade para uma região um pouco menos exposta ao choque energético do que EMEA e Ásia”, afirmou, referindo-se à região que engloba Europa, Oriente Médio e África.
Retornos expressivos em carry trade na região
As moedas da América Latina ofereceram os melhores retornos em operações de carry trade em mercados emergentes neste ano. Uma estratégia de tomar empréstimos em dólar e comprar peso colombiano rendeu 22%; outra focada no real brasileiro gerou ganho de 12,9%; e uma terceira, voltada ao peso argentino, avançou 12,8%. Em contraste, operações compradas no zloty polonês, na rupia indonésia e no baht tailandês acumularam perdas de pelo menos 5%.
A volatilidade cambial global disparou quando a guerra com o Irã começou no fim de fevereiro, mas desde então vem seguindo trajetória de queda. Um indicador de volatilidade implícita de um mês para moedas de mercados emergentes caiu na quinta-feira ao menor nível desde janeiro, segundo um índice do JPMorgan Chase & Co. A medida recuou à medida que bancos centrais buscaram conter movimentos excessivos das moedas e as tensões comerciais diminuíram. A menor volatilidade é essencial para o carry trade, pois evita que a vantagem dos juros seja anulada por movimentos desfavoráveis no câmbio.
Real brasileiro lidera métrica de carry sobre risco
O real brasileiro lidera todos os seus pares de mercados emergentes na métrica de carry sobre risco, com pontuação atual de 1,33, segundo uma lista de 27 moedas compilada pela Bloomberg. O peso colombiano aparece em terceiro lugar, com 1,31, e o peso mexicano em quinto, com 0,91. A relação é calculada com base na diferença entre as taxas de juros de três meses da moeda-alvo e da moeda usada para financiamento, dividida pela volatilidade implícita.
Fatores específicos dos mercados locais também estão em jogo, especialmente para as moedas da Colômbia e do Brasil, incentivando movimentos independentes do conflito externo, segundo Brendan McKenna, estrategista de moedas e juros da América Latina no Société Générale.
“A história específica da Colômbia é positiva, apoiada pelo resultado eleitoral favorável ao mercado e por um banco central que ainda busca elevar os juros”, afirmou McKenna. “Já no Brasil, as nuances caminham na direção oposta, em nossa visão. A política doméstica pode estar se tornando mais compatível com um resultado menos favorável ao mercado, enquanto o Banco Central do Brasil pode considerar cortes de juros já em agosto.”
Wall Street favorece moedas de alto rendimento
Os bancos de Wall Street vêm favorecendo moedas de maior rendimento em mercados emergentes. Estrategistas do Citigroup Inc. recomendaram recentemente a clientes que mantenham posições compradas em uma cesta formada por real brasileiro, peso colombiano, peso mexicano e lira turca, usando o euro e o dólar americano como moedas de financiamento. O JPMorgan Chase & Co. está atualmente com posição acima da média no peso colombiano, que se beneficia de algumas das mais altas taxas reais de juros da América Latina.
A maior parte das posições atuais de carry trade mantidas por investidores está concentrada na América Latina, especialmente no Brasil e na Colômbia, segundo estimativas do Citigroup Inc.
“Se o Federal Reserve mantiver os juros inalterados, os ativos de mercados emergentes podem continuar apresentando bom desempenho, particularmente as moedas de alto carry apoiadas por fundamentos macroeconômicos domésticos sólidos e cenários políticos estáveis, como a Colômbia”, disse Vandana Bhatter, chefe de vendas corporativas de câmbio para a Ásia-Pacífico no banco americano, em Singapura.
Riscos não podem ser ignorados
Ainda assim, a história da América Latina mostra como o otimismo pode ser facilmente interrompido.
“A América Latina não está livre de riscos”, disse Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana de mercados emergentes da Aberdeen, em Londres. “Temos as eleições no Brasil e, na Colômbia, já existe muito otimismo em relação à trajetória de consolidação fiscal, algo sobre o qual, pessoalmente, acredito que seja preciso manter certo ceticismo.”
“Além disso, temos o risco do El Niño, que ameaça as moedas andinas”, como o peso chileno, o sol peruano e o peso colombiano, acrescentou.
Exportações fortes e juros altos sustentam atratividade
As moedas latino-americanas também pareciam preparadas para superar seus pares devido à perspectiva positiva para suas exportações, combinada com as elevadas taxas de juros, segundo a Brandywine Global Investment Management.
“Há uma melhora nos superávits em conta corrente devido ao crescimento das exportações de commodities, como petróleo e mineração, e mais recentemente das exportações manufatureiras impulsionadas pelo nearshoring”, disse Carol Lye, gestora de portfólio da Brandywine, em Singapura.
“Além disso, os bancos centrais da América Latina já haviam apertado a política monetária anteriormente, levando as taxas nominais a níveis elevados, e agora, com a desaceleração da inflação, os altos rendimentos reais ajudam a manter a atratividade das moedas da região”, afirmou.
O que observar na próxima semana
Bancos centrais de Indonésia, Paraguai, Rússia, Nigéria e África do Sul anunciarão decisões de política monetária. A Coreia do Sul divulgará dados preliminares do PIB do segundo trimestre. México e Líbano publicarão números de inflação ao consumidor (CPI). Malásia, Taiwan, Argentina e Brasil divulgarão dados de comércio exterior.



