A produção de petróleo no Brasil atingiu um novo recorde, mas a indústria de transformação mostra sinais de desaceleração. Segundo dados divulgados recentemente, a extração de petróleo cresceu 5,2% no primeiro semestre, alcançando uma média de 3,4 milhões de barris por dia. No entanto, a indústria de transformação, que converte matérias-primas em produtos, registrou queda de 1,8% no mesmo período, evidenciando uma perda de fôlego que preocupa especialistas.
O que está acontecendo com a indústria de transformação?
A indústria de transformação, que inclui setores como alimentos, químicos, metalurgia e veículos, vem enfrentando desafios como custos elevados, juros altos e incertezas econômicas. A queda de 1,8% na produção é um reflexo direto dessas dificuldades. "A indústria de transformação está sofrendo com a combinação de juros altos e demanda fraca", afirma o economista-chefe de uma consultoria, que preferiu não se identificar.
O desempenho contrasta com o setor extrativo, que se beneficia dos preços internacionais do petróleo e dos investimentos em pré-sal. Enquanto a produção de petróleo bate recordes, a indústria de transformação enfrenta uma das piores fases dos últimos anos, com capacidade ociosa crescente e demissões em alguns segmentos.
Impactos na economia
A perda de fôlego da indústria de transformação tem impactos diretos no emprego e no PIB. O setor é um dos maiores empregadores do país, e a queda na produção pode levar a mais demissões. Segundo o IBGE, a indústria de transformação responde por cerca de 12% do PIB brasileiro, e a retração recente pode contribuir para um crescimento econômico mais fraco em 2026.
Além disso, a indústria de transformação é fundamental para a inovação e a produtividade. Sem ela, o país depende mais de commodities, o que aumenta a vulnerabilidade a choques externos. "Precisamos reindustrializar o Brasil, mas isso requer políticas públicas consistentes", diz a economista Marina Silva, da Universidade de São Paulo.
O que explica o recorde na produção de petróleo?
O recorde na produção de petróleo é resultado de novos poços no pré-sal e da entrada em operação de plataformas como o P-78, no campo de Búzios. A Petrobras e outras petroleiras têm investido pesado na expansão da capacidade, impulsionadas pelos preços internacionais elevados. No segundo trimestre, a produção média foi de 3,6 milhões de barris por dia, um aumento de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
No entanto, esse boom do petróleo não se reflete na cadeia produtiva local. Grande parte dos equipamentos utilizados na extração é importada, e a indústria nacional não consegue se beneficiar plenamente do crescimento do setor. "O petróleo não está gerando os encadeamentos produtivos que deveria", observa o analista de energia Carlos Alberto.
Perspectivas para o futuro
As perspectivas para a indústria de transformação são incertas. A queda da taxa Selic, que começou em setembro, pode ajudar a reduzir os custos de financiamento e estimular a demanda. No entanto, a recuperação deve ser lenta, e muitos setores ainda enfrentam estoques elevados e concorrência de produtos importados.
Para o petróleo, a tendência é de continuidade do crescimento, com novos projetos previstos para os próximos anos. O desafio é fazer com que essa riqueza se converta em desenvolvimento industrial sustentável, por meio de políticas que incentivem a produção local de bens e serviços para o setor.
Enquanto isso, o governo estuda medidas para apoiar a indústria de transformação, como linhas de crédito especiais e desonerações fiscais. Mas os especialistas alertam que é preciso uma visão de longo prazo, que vá além de medidas pontuais.



