Ray Dalio passou 42 anos visitando a China, construindo relações com autoridades de alto escalão e estudando a história política do país desde 221 a.C. Mas, depois de uma viagem recente de 10 dias a Pequim — parte de um giro de um mês pela Ásia — o fundador da Bridgewater Associates diz que algo mudou, e mudou rápido.
“Nos últimos meses houve uma grande mudança na ordem mundial”, escreveu Dalio em um ensaio abrangente publicado em 18 de junho no LinkedIn, onde sua newsletter tem 750 mil assinantes. Uma versão resumida do texto também havia sido publicada antes no Financial Times.
O gatilho: Estreito de Ormuz e o sinal dos EUA
Na leitura de Dalio, o gatilho foi a forma como os Estados Unidos lidaram com a apreensão do Estreito de Ormuz pelo Irã. O episódio teria convencido líderes em toda a Ásia — inclusive os de países que abrigam bases militares americanas — de algo que há muito suspeitavam, mas raramente diziam em voz alta: que o público americano “não tem disposição para suportar os desconfortos da guerra” e que Washington “não tem o que é preciso para lutar para manter seu império”.
O paralelo histórico a que Dalio recorre é direto. “Essa situação se parece muito com a forma como os britânicos lidaram com a tomada do Canal de Suez pelo Egito”, escreveu ele, “o que sinalizou o fim do Império Britânico”.
Um novo sistema tributário toma forma
Dalio vê em Pequim não um impasse, mas uma migração diplomática. Líderes mundiais agora viajam para se encontrar com o presidente Xi Jinping para “construir relações de tipo tributário” — expressão que funciona como a tese central do ensaio. Na visão dele, estamos assistindo ao surgimento inicial de uma versão moderna do antigo sistema tributário chinês: uma ordem hierárquica, mas não militar, na qual potências menores reconhecem a primazia chinesa em troca de acesso econômico e estabilidade.
O presidente Donald Trump fez uma visita de Estado a Pequim em maio, viagem que, na visão de líderes da operação da McKinsey na China, reflete uma relação EUA-China que já não está mais em queda livre — embora Dalio argumente que a direção dessa estabilização importa tanto quanto o fato de ela existir.
O sistema tributário: 2 mil anos de história
O sistema tributário governou as relações exteriores da China por cerca de 2 mil anos, de aproximadamente 200 a.C. até o fim do século 19. Não se tratava de um império no sentido ocidental, já que a China não ocupava nem controlava os Estados subordinados. Em vez disso, exigia deferência — e a recebia —, com recompensas para boas relações e punições, em geral econômicas, para as ruins. “No sistema tributário, as relações não se dão entre iguais”, escreveu Dalio, “mas entre superiores e subordinados que reconhecem suas posições relativas na hierarquia”.
O último sistema tributário ruiu durante o que os chineses chamam de “100 anos de humilhação” — um século de invasões estrangeiras, tratados desiguais e trauma nacional que começou com a derrota da China para a Grã-Bretanha na Guerra do Ópio, em 1839, e terminou apenas com a fundação da República Popular da China, em 1949.
100 anos de humilhação e a reunificação com Taiwan
Ao analisar os acontecimentos dramáticos que levaram os britânicos a assumir o controle de Hong Kong e abrir portos chineses ao comércio estrangeiro, Dalio foca nas condições comerciais que a China foi forçada a aceitar e em sua influência cada vez menor sobre Taiwan, Coreia e o Mar do Sul da China. Segundo ele, são situações que Pequim buscará reverter agora que os EUA já mostraram suas cartas — mas fará isso de uma forma muito pouco americana.
“Toda a história dos 100 anos de humilhação continua viva na mente dos líderes chineses e da maioria do povo chinês”, escreveu Dalio, argumentando que, para eles, isso não é apenas história, mas uma ferida que a reunificação com Taiwan ajudaria a fechar.
Xi vem dizendo algo parecido em público. Em abril, enquanto a crise com o Irã sacudia os mercados globais e o FMI cortava sua projeção de crescimento mundial para 3,1%, Xi disse ao primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, que a ordem internacional estava “desmoronando em desordem” — usando uma expressão chinesa que transmite não apenas caos, mas também degeneração moral.
O cronograma de Xi para Taiwan
Dalio afirmou suspeitar que Xi queira concluir essa reunificação durante um eventual novo mandato a partir de 2028. A eleição presidencial de Taiwan está marcada para janeiro daquele ano, e o partido de oposição da ilha, o KMT, que defende laços mais estreitos com Pequim, vem se reunindo discretamente tanto com Xi quanto com membros do Congresso americano. Uma vitória do KMT poderia abrir caminho para um arranjo ao estilo de Hong Kong, sugere Dalio, sem exigir intervenção militar dos EUA nem o uso de força militar chinesa.
Vencer sem lutar: a arte da guerra de Sun Tzu
A forma como Dalio interpreta a estratégia chinesa se apoia fortemente em A Arte da Guerra, de Sun Tzu, livro que ele recomenda que os leitores estudem. A ideia central, segundo sua leitura, é: “Subjugar o inimigo sem lutar é o auge da habilidade”.
Na prática, isso significa que a China buscará a reunificação com Taiwan e o desmonte das políticas americanas de contenção não por meio de confronto militar direto, mas por uma pressão indireta constante — econômica, diplomática e financeira. A analogia usada por Dalio é a diferença entre xadrez e Go. No xadrez, o objetivo é aniquilar o adversário. No Go, o objetivo é limitar sua área de influência.
“A China pode avançar simplesmente fazendo ameaças e não encontrando resistência”, escreveu. “Há uma boa chance de que a guerra seja travada de forma tão sutil que nem perceberemos que ela está sendo travada”.
O sinal privado entre Xi e Trump
O sinal mais importante dessa mudança, segundo Dalio, foi uma troca privada entre Xi e Trump: Xi teria deixado claro, “em forma de ameaça velada”, que as planejadas vendas de armas dos EUA a Taiwan “não seriam bem recebidas”. Dalio espera que Trump acabe cancelando essas vendas. Se isso não acontecer, prevê que a China responderá com uma demonstração dramática de força — algo muito mais severo do que os exercícios militares realizados após a visita de Nancy Pelosi a Taipei, em 2022.
A vantagem tecnológica: chips e IA
A influência que a China tem sobre Taiwan não é apenas militar. É tecnológica. Taiwan produz a esmagadora maioria dos semicondutores mais avançados do mundo — os chips que alimentam a inteligência artificial. Dalio resume assim: “IA é tudo, e IA sem Taiwan não é nada”.
Um bloqueio chinês às exportações de chips, observa ele, nem precisaria de fato acontecer para ser eficaz. A mera ameaça já bastaria para derrubar os mercados acionários globais, especialmente as ações ligadas à IA. E a China está correndo para chegar ao ponto em que essa vantagem se torne ainda mais assimétrica: segundo Dalio, Pequim pretende alcançar autossuficiência em chips até o fim de 2027, enquanto os EUA e seus aliados continuam dependentes da produção taiwanesa.
O que isso significa para os mercados
Para os investidores, a mensagem de Dalio é estruturalmente baixista em relação à primazia dos EUA. A economia externa da China — o que ele chama de “China, Inc.” — está gerando enormes superávits de exportação e acumulando ativos financeiros em ritmo acelerado. O papel do renminbi no comércio global está crescendo. Empresas chinesas estão “compreensivelmente relutantes em acumular ativos americanos que podem ser alvo de sanções”. O capital está se afastando do sistema baseado no dólar que sustentou as finanças globais por 80 anos.
“A ordem mundial está agora em processo de mudança de uma ordem multilateral, baseada em regras e liderada pelos EUA, para uma ordem bipolar, baseada em poder e hierarquia”, escreveu Dalio.
O colunista sênior colaborador da Fortune, Steve Hanke, fez um argumento semelhante antes da visita de Estado de Trump a Pequim, em maio, ao dizer que a China passou seis anos construindo metodicamente uma vantagem que os EUA já não têm mais — dominando a cadeia de terras raras, minerais críticos e materiais que sustentam tanto a defesa quanto o hardware de IA. “A China tem poder intelectual e poder técnico”, disse Hanke em maio. “O verdadeiro vencedor estratégico foi a China”.
Dalio, que segundo suas próprias contas já errou cerca de um terço de suas projeções de mercado, teve o cuidado de fazer ressalvas — mas não em relação ao quadro geral. Para ele, o sistema tributário não é uma metáfora para o que está por vir. É o manual de operação.
“Ter poder, mostrá-lo e não precisar usá-lo é muito eficaz”, conclui ele, “e está em linha com a abordagem chinesa”.



