Em meio à disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia tecnológica, a Índia emerge como um terceiro polo de inovação digital. Longe de ser apenas um mercado consumidor, o país transformou sua realidade a partir de uma combinação de infraestrutura pública digital e incentivos à iniciativa privada. O resultado é um salto que chama atenção de formuladores de políticas públicas em todo o mundo, inclusive no Brasil.
O motor do salto indiano é a India Stack, uma camada de tecnologias abertas que organiza identidade, pagamentos, dados e documentos. Lançada com o sistema de identificação biométrica Aadhaar, a plataforma evoluiu e hoje suporta desde a abertura de contas bancárias em segundos até o mercado de crédito digital. A interoperabilidade é o grande trunfo: cada elemento da stack conversa com os outros, criando um ambiente contínuo para serviços públicos e privados.
Números que impressionam
Os indicadores são contundentes. O sistema de pagamentos instantâneos UPI, lançado em 2016, já movimenta mais de 12 bilhões de transações por mês, segundo registros oficiais. Em valores, isso representa centenas de bilhões de dólares, superando a soma dos cartões de crédito em muitos mercados maduros. No mundo físico, os QR Codes da UPI estão em quase todos os comércios de rua, de metrôs a feiras livres.
Mas a transformação vai muito além do sistema financeiro. O governo indiano redesenhou programas sociais usando a identificação digital como base. Benefícios como os subsídios à alimentação e o gás de cozinha são transferidos diretamente para as contas dos cidadãos, eliminando intermediários. Estima-se que bilhões de dólares foram economizados com o fim de fraudes e desvios.
Uma década de avanço
O caminho não foi trivial. Em 2009, quando o Aadhaar foi lançado, a Índia ainda tinha grande parte da população sem documentos formais. A construção de um repositório biométrico com mais de 1,3 bilhão de registros exigiu investimento, paciência e um desenho institucional capaz de envolver governos estaduais e federais. Hoje, o sistema serve de base para serviços de saúde e educação, com prontuários eletrônicos e entrega de material didático.
A iniciativa privada também se beneficiou. Startups indianas, especialmente no setor de fintech, prosperaram apoiadas na infraestrutura pública. Ao invés de construir sistemas proprietários, elas usam as APIs abertas do governo, reduzindo custos e acelerando a incorporação de novos usuários. Investidores internacionais passaram a olhar para a Índia como um laboratório de soluções escaláveis para outros mercados.
O que o Brasil pode aprender
A comparação com o Brasil é natural. O Pix tornou o país referência em pagamentos instantâneos, mas ainda falta uma integração mais profunda com outros serviços públicos. Nesse aspecto, a Índia mostra como a identidade digital, a saúde e a tributação podem ser conectadas em um só ecossistema, com boas práticas de desburocratização e portabilidade de dados.
Especialistas apontam que o modelo indiano não é facilmente transplantável, dadas as diferenças institucionais e demográficas. No entanto, a estratégia de construir plataformas públicas abertas antes de convocar o setor privado para agregar serviços é um aprendizado valioso. No Brasil, a discussão sobre identidade digital e interoperabilidade está em andamento, e o exemplo da Índia alimenta esse debate.
Desafios e precauções
Para além dos avanços, há riscos. A centralização de dados sensíveis em um único sistema levanta alertas sobre privacidade e vigilância. A Índia aprovou uma lei de proteção de dados em 2023, mas sua implementação ainda enfrenta críticas de organizações de direitos digitais. Também há a questão da infraestrutura de telecomunicações: a conectividade nas áreas rurais ainda é limitada, criando um abismo digital entre regiões urbanas e o interior.
Ainda assim, a trajetória indiana é uma das mais relevantes do século. Ao construir uma economia digital soberana, o país não apenas modernizou seu tecido econômico, mas também contestou a hegemonia das grandes empresas de tecnologia ocidentais e chinesas. Esse movimento tem implicações geopolíticas profundas, e seus desdobramentos devem marcar o cenário econômico dos próximos anos.



