Funcionários de diversas empresas têm encontrado uma saída criativa para lidar com a sobrecarga de reuniões: agendar compromissos fictícios no calendário. A prática, que ganhou força com o trabalho remoto, é uma tentativa de recuperar horas de trabalho concentrado, cada vez mais raras em rotinas corporativas tomadas por videoconferências.
Por que os profissionais recorrem às reuniões fictícias?
A reclamação é antiga: muitas reuniões poderiam ser resolvidas com um e-mail ou uma mensagem rápida. Mas, na cultura corporativa, o convite para uma reunião virou símbolo de alinhamento e de produtividade. Para especialistas, o excesso de compromissos é um dos principais vilões do foco. Pesquisas apontam que executivos perdem, em média, 23 horas por semana em reuniões – um tempo que poderia ser dedicado a atividades mais produtivas.
Diante desse cenário, profissionais passaram a bloquear horários na agenda sob o pretexto de estarem ocupados com um encontro interno. Na prática, usam esse período para concluir relatórios, revisar contratos ou simplesmente pensar sem interrupções. A técnica, porém, exige cuidado para não levantar suspeitas entre gestores e colegas.
Como a prática funciona
O método é simples: criar um evento no calendário com um nome genérico, como “alinhamento interno” ou “reunião de projeto”, e definir os participantes como “obrigatórios” ou “opcionais”. Alguns profissionais ainda marcam o horário como “fora do escritório”, o que impede que outras pessoas agendem compromissos no mesmo período.
Em empresas que adotam o modelo híbrido, a prática se tornou mais fácil, já que a localização e a disponibilidade são menos monitoradas. Um funcionário pode, por exemplo, agendar uma “reunião com o cliente” para escapar de uma chamada de última hora e terminar uma entrega atrasada. O fenômeno não é novo, mas ganhou contornos de rebelião silenciosa contra a cultura do “meetingismo”.
Resposta das empresas
Algumas companhias já notaram o movimento e reagiram. Há casos de gestores que, ao perceberem o aumento de reuniões no calendário, passaram a questionar a real necessidade de cada encontro. Outros, mais céticos, veem as reuniões fictícias como uma falta de transparência e um possível sinal de desengajamento.
Especialistas em carreira recomendam que a prática seja usada com moderação. Em vez de mentir no calendário, o ideal é negociar com a liderança horários de foco e estabelecer uma cultura que respeite o tempo de trabalho individual. Algumas empresas já adotam “faróis de foco” ou bloqueios de agenda para todas as equipes, o que reduz a necessidade de recorrer a expedientes como esse.
Impactos e riscos
Do ponto de vista individual, a reunião fictícia pode ser um alívio imediato para quem precisa entregar um projeto com prazo apertado. No entanto, o uso recorrente pode minar a confiança no ambiente de trabalho. Se um gestor descobre que o funcionário participou de uma reunião inexistente, a credibilidade do profissional fica abalada.
O desafio para as empresas é entender o que está por trás desse comportamento. Quando a agenda de um time está tão poluída que as pessoas recorrem a mentiras para trabalhar, o problema não é a ética dos funcionários, mas a forma como o tempo é gerenciado. Organizações que adotam políticas claras sobre reuniões e protegem períodos de concentração tendem a ter equipes mais produtivas e satisfeitas.
A tendência, segundo a publicação, é que o assunto se torne parte do debate sobre saúde mental e produtividade no trabalho. Em um mundo em que a atenção é o recurso mais escasso, a reunião fictícia é um sintoma de um sistema que precisa ser repensado.



