O Japão, uma das maiores economias do mundo, tem sido palco de intensos debates sobre a eficácia das intervenções governamentais no mercado de câmbio. A recente pressão sobre o iene, que atingiu mínimas históricas frente ao dólar, levou as autoridades japonesas a considerarem novas medidas para sustentar a moeda. No entanto, especialistas apontam que essas ações, embora possam gerar alívio temporário, raramente alteram as tendências de longo prazo, que são moldadas por fatores como juros, inflação e fluxos globais de capital.
O contexto da intervenção japonesa
O governo japonês, por meio do Ministério das Finanças e do Banco do Japão, tem um histórico de intervenções no mercado cambial. Em setembro de 2022, o país realizou sua primeira intervenção para comprar ienes desde 1998, gastando cerca de 2,8 trilhões de ienes (aproximadamente US$ 19 bilhões) para conter a queda da moeda. A medida foi tomada após o iene despencar para o nível de 145 por dólar, o que gerou preocupações sobre o aumento do custo das importações e a inflação.
Apesar do esforço, o efeito foi temporário. O iene continuou a se depreciar nos meses seguintes, atingindo 151,94 por dólar em outubro de 2022, o nível mais baixo em 32 anos. Isso demonstra que, mesmo com bilhões de dólares em reservas, o governo japonês não conseguiu reverter a tendência de desvalorização da moeda.
Por que as intervenções falham?
De acordo com analistas, as intervenções cambiais são eficazes apenas quando há um consenso entre os principais bancos centrais e quando os fundamentos econômicos estão alinhados. No caso do Japão, a política monetária ultrafrouxa do Banco do Japão, que mantém taxas de juros negativas, contrasta com o aperto monetário do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, que elevou os juros para combater a inflação. Essa divergência de políticas faz com que os investidores busquem retornos mais altos em dólares, pressionando o iene para baixo.
“Intervenções unilaterais raramente mudam a direção do câmbio, pois os mercados são maiores e mais rápidos do que qualquer governo”, afirma Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Ourinvest. “Sem uma mudança nos fundamentos, como a normalização da política monetária japonesa, o impacto é limitado e de curto prazo.”
O papel dos juros e da inflação
Os juros são um dos principais determinantes do câmbio. Quando um país eleva suas taxas de juros, sua moeda tende a se valorizar, pois atrai capital estrangeiro em busca de rendimentos maiores. No Japão, a taxa básica está em -0,1%, enquanto nos EUA a taxa dos Fed Funds está na faixa de 5,25% a 5,5%. Essa diferença de mais de 5 pontos percentuais torna o dólar muito mais atraente para investidores globais.
A inflação também desempenha um papel crucial. O Japão, que por décadas lutou contra a deflação, viu a inflação ao consumidor subir para 3,3% em 2023, acima da meta de 2% do Banco do Japão. No entanto, o banco central japonês tem sido cauteloso em elevar os juros, temendo sufocar a frágil recuperação econômica. Essa hesitação prolonga a pressão sobre o iene.
Fluxos globais de capital e o impacto no comércio
Os fluxos globais de capital são outro fator que escapa ao controle dos governos. Grandes fundos de investimento e corporações multinacionais movimentam trilhões de dólares diariamente, buscando as melhores oportunidades de retorno. Quando o cenário global é de aversão ao risco, o dólar se fortalece como porto seguro, independentemente das ações do governo japonês.
No âmbito comercial, a desvalorização do iene tem efeitos mistos. Por um lado, torna as exportações japonesas mais baratas e competitivas, beneficiando setores como o automotivo e o de eletrônicos. Por outro lado, aumenta o custo das importações de energia e alimentos, pressionando a inflação doméstica e o poder de compra das famílias.
O que o futuro reserva?
O governo japonês enfrenta um dilema: intervir novamente no câmbio pode ser visto como uma medida desesperada e ineficaz, enquanto a inação pode levar a uma depreciação ainda maior do iene. Alguns analistas sugerem que o Banco do Japão poderia ajustar sua política de controle da curva de juros, permitindo que as taxas de longo prazo subam, o que ajudaria a sustentar a moeda sem uma intervenção direta.
No entanto, qualquer mudança na política monetária japonesa teria repercussões globais, dado o tamanho da economia do país e sua influência nos mercados financeiros. Por enquanto, o Japão parece determinado a manter sua postura accommodatícia, mesmo que isso signifique conviver com um iene fraco e as consequências econômicas que isso acarreta.
Conclusão: limites do poder governamental
O caso do Japão ilustra claramente os limites do poder dos governos sobre o câmbio. Em um mundo de mercados financeiros integrados e fluxos de capital massivos, as intervenções estatais são, na melhor das hipóteses, paliativas. As tendências cambiais são determinadas por forças econômicas fundamentais, e tentar contrariá-las sem abordar essas causas é uma batalha perdida. Para o Japão, a solução de longo prazo pode exigir uma revisão de sua política monetária, mas isso é um desafio que o país ainda não está pronto para enfrentar.



