A Fifa confirmou planos de criar uma nova subsidiária, a FIFA Forward Enterprise (FFE), para vender uma participação minoritária dos direitos comerciais da Copa do Mundo a investidores privados. O valor estimado da operação é de cerca de 20 bilhões de dólares (R$ 102 bilhões). Entre os potenciais investidores está a Thrive Eternal, empresa liderada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Críticas e questionamentos
O projeto gerou forte reação negativa de federações, dirigentes e especialistas. As principais preocupações envolvem possíveis conflitos de interesse devido à proximidade entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e Donald Trump, além de falta de transparência, riscos de corrupção e questionamentos sobre a legitimidade da entidade para tomar uma decisão dessa magnitude sem ampla consulta. "A Copa do Mundo é um dos poucos eventos esportivos verdadeiramente globais, e isso envolve uma responsabilidade que vai além da maximização de receitas", afirmou Bret Myers, professor de negócios esportivos da Universidade Villanova, nos Estados Unidos, à DW.
Modelo de negócios e precedentes
A proposta segue um modelo comum nos esportes americanos, onde a participação de investidores privados é amplamente aceita. A Fórmula 1 passou por processo semelhante após ser adquirida pela Liberty Media em 2017. Greg Maffei, ex-presidente-executivo da Liberty Media, atua como conselheiro comercial da Fifa no projeto. "Os esportes da América do Norte operam há muito tempo sob uma lógica mais comercial, baseada em propriedade privada, valorização de franquias e presença de investidores", disse Myers. "No futebol, especialmente na Europa, clubes e competições ainda são vistos como instituições culturais, e não apenas como ativos comerciais."
Risco de privatização da Copa?
Para muitos críticos, a principal preocupação é que a iniciativa represente o primeiro passo rumo a uma eventual privatização da principal competição do futebol mundial. "Uma participação minoritária é muito diferente de abrir mão do controle", afirmou Myers. "Ainda assim, trata-se de uma mudança significativa na forma como a Copa do Mundo será financiada e explorada comercialmente." A Fifa, embora formalmente uma organização sem fins lucrativos, acumula reservas estimadas em 8 bilhões de dólares (R$ 40 bilhões), impulsionadas pelos resultados da última Copa do Mundo.
Consultas e pressão sobre federações
A entidade afirma que os recursos serão reinvestidos no futebol e oferece um repasse linear de 20 milhões de dólares (R$ 102 milhões) para cada uma das 211 associações nacionais em 2027, valor que subiria para 24 milhões de dólares (R$ 122 milhões) em 2035. As federações têm até 19 de setembro para informar se aceitam o plano. Caso contrário, esses valores poderão ser reduzidos ou até retirados. "O presidente controla um enorme volume de recursos e os utiliza para recompensar quem lhe é leal e punir quem não o apoia", afirmou Miguel Maduro, ex-presidente do Comitê de Governança, Auditoria e Conformidade da Fifa.
Reação das confederações
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) afirmou não ter sido consultada e declarou decepção. A Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) disse estar "profundamente preocupada". Já a Confederação Africana de Futebol (CAF) convidou suas associações a "examinar" o projeto e a "participar do processo de consulta". A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) não se manifestaram até o momento. A União Associações Europeias de Futebol (Uefa) afirmou que "o futebol não pertence à Fifa para ser vendido".
Possíveis consequências
As críticas da AFC e da Concacaf podem reforçar a posição da Uefa em uma eventual articulação contra o projeto. O episódio também pode estimular uma aliança entre confederações continentais para apoiar um adversário de Infantino nas próximas eleições da Fifa ou até levantar a possibilidade de boicotes a competições futuras. Ainda assim, os valores prometidos às federações podem alterar o cenário político. Maduro avalia que esse tipo de resistência costuma perder força com o tempo. "Na maioria das vezes, essas declarações surgem sob pressão da opinião pública. Depois, as organizações acabam não levando suas posições adiante", disse. Segundo ele, a crescente oposição da Uefa também está ligada à defesa de seus próprios interesses econômicos, especialmente da Liga dos Campeões.



