As exportações brasileiras para a Argentina registraram queda de 18,1% nos últimos 12 meses, em meio a uma relação diplomática cada vez mais tensa entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. O dado, divulgado pelo Ministério da Economia, reflete o impacto direto do desgaste político no comércio bilateral, que historicamente é um dos pilares da integração regional.
Desempenho recente da balança comercial
Em junho de 2026, as vendas brasileiras para o país vizinho totalizaram US$ 1,3 bilhão, com destaque para o setor automotivo, que responde por cerca de 40% do total exportado. Apesar da relevância, o segmento também sofreu retração, influenciado por incertezas cambiais e barreiras tarifárias impostas pelo governo argentino.
Já as importações provenientes da Argentina cresceram 3,8% no mesmo período, impulsionadas por produtos agropecuários e energia. Esse movimento gerou um superávit comercial brasileiro menor, passando de US$ 4,7 bilhões para US$ 3,2 bilhões nos últimos doze meses.
Contexto diplomático conturbado
A deterioração comercial ocorre em um ambiente de críticas mútuas e ofensas pessoais entre Lula e Milei. Desde que assumiu a presidência argentina, Milei adotou um discurso de confronto com o governo brasileiro, questionando acordos do Mercosul e defendendo uma política de abertura unilateral. Em contrapartida, Lula classificou as declarações do argentino como "retrógradas" e "danosas à integração sul-americana".
Especialistas apontam que a crise diplomática já afeta a confiança de investidores e empresários. "A relação entre os dois maiores sócios do Mercosul está em seu pior momento desde os anos 1990", avalia Carlos Alberto Pereira, analista de comércio exterior da Fundação Getulio Vargas.
Impactos setoriais e perspectivas
O setor automotivo é o mais atingido, com queda de 22% nas exportações de veículos e autopeças. Fabricantes brasileiros, como montadoras instaladas no ABC paulista, enfrentam dificuldades para honrar contratos devido à escassez de dólares na Argentina e à instabilidade regulatória.
Outros segmentos, como máquinas e equipamentos, também registraram recuo de 15%. Em contrapartida, as vendas de combustíveis e óleos minerais cresceram 5%, puxadas pela demanda argentina por gasolina e diesel.
Comparação histórica e reações oficiais
A queda de 18,1% é a maior desde 2019, quando o comércio bilateral foi afetado pela crise cambial argentina. O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, manifestou preocupação e defendeu a retomada do diálogo. "Estamos abertos a negociar, mas não aceitaremos pressões ou desrespeito", afirmou o chanceler Mauro Vieira em entrevista coletiva.
Do lado argentino, o ministro da Economia, Luis Caputo, minimizou os números e disse que "o comércio exterior não pode ser refém de divergências políticas".
Analistas projetam que, caso as tensões persistam, o volume de trocas pode recuar ainda mais nos próximos meses. O Mercosul, que completa 35 anos em 2026, enfrenta seu maior desafio de coesão desde a fundação.



