El Niño Godzilla 2026-27: Brasil é mercado-chave para risco macro, diz Itaú BBA
El Niño Godzilla: Brasil é mercado-chave para risco macro

Investidores, analistas, companhias abertas e governos estão atentos ao próximo ciclo do "El Niño Godzilla" (2026-2027) na América Latina, especialmente quanto ao risco macroeconômico de curto prazo. Na região, o Brasil se destaca como "mercado-chave" para monitoramento, conforme análise dos estrategistas do Itaú BBA.

A equipe do banco explica que as variáveis climáticas funcionam como termômetro para prever o comportamento de moedas locais e antecipar decisões de política monetária, devido ao impacto imediato do clima na oferta de commodities. "O tema ganhou relevância entre os investidores dado o peso crescente da América Latina no complexo global de grãos, a sensibilidade da região às oscilações na inflação de alimentos e energia causadas pelo clima, e os reflexos no câmbio, política monetária, atividade econômica e lucros das empresas em múltiplos setores", destaca o documento.

O que é o El Niño Godzilla?

Tecnicamente, o fenômeno (parte do ciclo ENOS) se caracteriza quando as águas superficiais do Pacífico equatorial esquentam no mínimo 0,5°C acima da média histórica, alterando os regimes globais de circulação atmosférica por um período que costuma durar de 9 a 12 meses. O apelido "Godzilla" é usado para eventos de intensidade excepcional.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Atenção global ao ciclo agrícola 2026/27 no Brasil

As atenções globais para o ciclo agrícola 2026/27 estão concentradas no Brasil, pois, segundo dados da NOAA compilados no estudo, há 63% de chance de o evento se manifestar de forma "muito forte", com temperaturas iguais ou superiores a 2,0°C entre novembro e janeiro. Geograficamente, a anomalia divide o país: enquanto a Região Sul deve registrar chuvas volumosas que blindam a produtividade da soja e do milho (apesar do risco de inundações), as lavouras do Centro-Oeste e do MATOPIBA ficam expostas a estiagens repentinas (veranicos) e atrasos crônicos no plantio da safrinha.

O Itaú BBA projeta uma colheita recorde de 182,4 milhões de toneladas de soja. No entanto, qualquer desvio climático pode reverter esse otimismo. "Nosso cenário base ainda aponta para uma safra recorde em 2026/27, mas um resultado mais adverso poderia encolher o balanço global de soja e dar suporte aos preços na CBOT, com reflexos em empresas do agronegócio, câmbio, inflação de alimentos e no balanço energético ao longo do segundo semestre de 2026", afirma o relatório.

Se houver frustração de apenas 6% no volume projetado, cerca de 11 milhões de toneladas evaporariam do mercado, derrubando a relação estoque-consumo global de 28% para 25%. Esse encolhimento da oferta elevaria os preços na Bolsa de Chicago, pressionando o IPCA, estressando o câmbio e reduzindo o PIB do agronegócio.

Mapa de riscos para empresas listadas na B3

O Itaú BBA mapeou os efeitos colaterais do fenômeno entre as companhias de capital aberto na B3, dividido por áreas de atuação.

Energia e Saneamento

O calor extremo deve impulsionar o consumo no Sudeste e Centro-Oeste, gerando ambiente de receita robusto para distribuidoras como Energisa (ENGI11) e Equatorial (EQTL3) no final de 2026. Por outro lado, a seca no Norte e Nordeste diminui a força dos ventos no semiárido e a vazão dos rios, encarecendo a energia no mercado livre e abrindo oportunidades para geradoras focadas em portfólios flexíveis, como Eneva (ENEV3) e Auren (AURE3).

Logística e Transportes

O segmento carrega viés majoritariamente negativo. A Hidrovias do Brasil (HBSA3) é a mais vulnerável, devido à probabilidade de restrições de navegação no rio Tapajós pelo nível baixo das águas na virada do terceiro para o quarto trimestre. Operadoras como Rumo (RAIL3) e Randon (RAPT4) dependem do tamanho do PIB agrícola para movimentar fretes e encomendas de vagões em 2027.

Agronegócio

A perspectiva geral é de setor resiliente. Companhias de grande escala como SLC Agrícola (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3) mitigam riscos com diversificação geográfica e irrigação. No Sul, a 3tentos (TTEN3) pode surfar maiores volumes de originação se o excesso de chuva não causar estragos logísticos severos. No setor sucroenergético, o atraso nas chuvas ditará o ritmo de moagem de cana e a qualidade do ATR no Centro-Sul.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Bancos e Seguros

O Banco do Brasil (BBAS3) precisa monitorar garantias e risco de crédito de sua carteira rural, concentrada no Centro-Oeste. Já a BB Seguridade (BBSE3) está em posição confortável: sua carteira agrícola tem forte exposição à Região Sul, e o El Niño reduz a chance de secas graves por lá, blindando a companhia contra grandes sinistros de quebra de safra.

Panorama da América Latina

Fora do Brasil, o El Niño pode deixar rastro econômico heterogêneo: será motor de recuperação agrícola para países castigados pela seca, mas em outras regiões se transforma em choque de oferta, deprimindo geração de energia, paralisando atividade extrativista e pressionando a inflação.

Argentina

O mercado vizinho opera na contramão e tende a colher os melhores resultados. As chuvas abundantes encerram a estiagem severa e impulsionam lavouras de milho e soja, recompondo as reservas cambiais. "O El Niño é geralmente favorável para a perspectiva macroeconômica da Argentina através de exportações agrícolas mais fortes e melhores fluxos cambiais", diz o banco. No corporativo, a Adecoagro tem impacto limitado por depender mais do Brasil, enquanto a Pampa Energia deve ver a geração hídrica derrubar preços de suas térmicas.

México

É o mercado menos exposto aos desdobramentos diretos do clima. As projeções indicam maior umidade no sul (podendo desacelerar volumes da Coca-Cola Femsa) e tempo seco e quente no norte, dando suporte às vendas da Arca Continental. O aquecimento das águas caribenhas pode acelerar a chegada de sargaço nas praias, ameaçando o fluxo de turismo nos aeroportos geridos pela ASUR.

Chile

O país deve registrar fortes chuvas nas regiões central e sul, testando a infraestrutura e desacelerando temporariamente setores como pesca, agro, mineração e construção. Em contrapartida, o cenário elétrico é beneficiado. "Uma melhor geração hidrelétrica pode reduzir os custos marginais de energia e impulsionar o crescimento do valor agregado, enquanto a reconstrução pós-evento e os gastos em infraestrutura podem fornecer uma compensação temporária", detalha a análise. Compradoras líquidas de energia no mercado spot, como Engie Energía Chile e Enel Chile, tendem a expandir margens.

Peru

O território enfrenta a ameaça de um El Niño Costeiro, que eleva a temperatura do mar e gera inundações de alto impacto. O maior impacto econômico ocorre na pesca: o aquecimento das águas força a migração de espécies comerciais para regiões profundas, acumulando contrações históricas de até 27% no segmento em seis meses. No setor financeiro, a perspectiva indica menor crescimento de carteira e avanço na inadimplência para Credicorp e Intercorp Financial Services. No varejo, redes como Falabella e Ripley enfrentam riscos, enquanto supermercados e farmácias, como Inretail e Cencosud, mostram maior resiliência.

Colômbia

Ao contrário do Cone Sul, o El Niño se manifesta com secas que atingem os reservatórios e disparam os preços de energia e alimentos. A estimativa do banco aponta que a inflação de alimentos pode rodar próxima a 13%, adicionando 0,4% à inflação cheia e tirando 0,1% do PIB em 2026. Para as empresas de energia, o cenário é desafiador devido à necessidade de acionamento de térmicas mais caras. No setor bancário, a atividade fraca e os juros pressionados tendem a elevar as provisões contra calotes.