O órgão regulador de mercado da China divulgou, na última semana, uma série de normas que regulamentam os subsídios oferecidos por plataformas de delivery no país. A iniciativa busca coibir a “concorrência desleal” no setor, impondo travas a subsídios oferecidos pelas ferramentas. As discussões sobre disputa por preços, endossadas pelas principais empresas do setor no país, encontram eco no Brasil, onde a chegada de concorrentes ao iFood tem atraído a atenção do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).
Diretrizes chinesas proíbem práticas monopolistas
Em um documento com dez diretrizes para a competição no setor, a administração estatal proibiu plataformas de obrigarem estabelecimentos a participar de campanhas de subsídio ou arcar com custos desses subsídios. O texto também determina que as empresas “não devem usar suas vantagens de capital para se envolver em práticas monopolistas, concorrência desleal ou outros comportamentos semelhantes”.
Há anos, o mercado de delivery na China é o centro de uma guerra de preços entre empresas como Meituan, Alibaba e JD.com. A disputa pela preferência dos chineses nas entregas de comida foi um dos principais fatores por trás da piora no desempenho financeiro de companhias do setor.
Fenômeno 'nei juan' e prejuízos bilionários
Administradores chineses têm um nome específico para tratar o fenômeno de competição excessiva e improdutiva, o “nei juan”. Em 2025, comissões publicaram um projeto de emenda atualizando a Lei de Preços nacional proibindo a venda abaixo de custo com intenção de eliminar concorrentes. A Meituan, líder do setor no país asiático que opera no Brasil com a marca Keeta, reportou prejuízo em três trimestres consecutivos e acumulou um resultado negativo em cerca de US$ 3,5 bilhões em 2025.
Em uma nota enviada ao InfoMoney, a operação da Meituan na China afirma que a empresa “apoia firmemente as diretrizes e irá analisá-las cuidadosamente, cooperando ativamente para promover sua implementação efetiva, em conformidade com as exigências regulatórias”. “A Meituan trabalhará em conjunto com as demais plataformas do mercado para cumprir as responsabilidades previstas nas diretrizes, promovendo uma concorrência baseada na qualidade dos serviços e na inovação, de forma a gerar benefícios para consumidores, comerciantes, entregadores e todo o ecossistema de delivery”, diz o comunicado.
O caso brasileiro e a atuação do CADE
Em junho de 2026, o CADE publicou uma Nota Técnica mapeando o cenário concorrencial de empresas de delivery em mercados como Reino Unido, União Europeia, Estados Unidos e China. A conclusão do estudo destacou a crescente atenção dos reguladores “às estratégias de subsídios agressivos e preços predatórios, viabilizadas por elevada capacidade financeira”.
De acordo com o CADE, estratégias como subsídios prolongados, frete grátis, cupons elevados, comissões zeradas e bônus expressivos para entregadores podem acelerar a captura de massa crítica e reforçar efeitos de rede, sobretudo quando financiados por empresas com grande capacidade financeira e atuação dominante em outros mercados. Inicialmente, essas medidas podem gerar benefícios aos consumidores, aponta a autarquia, mas são potencialmente excludentes.
Keeta no Brasil: cupons agressivos e críticas ao monopólio
Parte da estratégia de entrada da própria Meituan no Brasil, com a Keeta, foi baseada na disponibilização de cupons de desconto agressivos. O InfoMoney procurou a empresa para entender se o apoio à regulamentação chinesa pode ressoar na postura da companhia no Brasil, considerando a dinâmica do mercado local. Em nota, a companhia afirmou que, como uma marca recente no país, utiliza os cupons “para incentivar a experimentação inicial”, embora seu foco seja “conquistar e fidelizar consumidores pela qualidade, previsibilidade e experiência oferecidas pela plataforma”.
A companhia entende que o setor é fechado por cláusulas de exclusividade e banimento no Brasil. Sem mencionar diretamente o iFood, a Keeta descreve o mercado local de delivery como “anticompetitivo e disfuncional”, “marcado por um monopólio, com um único player concentrando mais de 80% do mercado”.
Exclusividade e investigação do CADE
Contratos de exclusividades com restaurantes são o alvo de algumas das principais críticas da empresa chinesa à concorrência aqui. Desde 2023, o iFood opera sob um Termo de Compromisso de Cessação (TCC) firmado junto ao CADE que impõe limites a contratos que impeçam restaurantes de operar junto a outras plataformas. Desde 2025, o CADE monitora possíveis quebras deste acordo. Em maio, o órgão antitruste questionou o iFood sobre suas práticas e abriu uma investigação para apurar eventuais descumprimentos do acordo.
Em comunicado enviado ao InfoMoney, o iFood reitera o cumprimento do TCC firmado com o CADE. “A empresa apresentou ao órgão dados e argumentos que demonstram que os casos apontados pela Superintendência-Geral foram situações pontuais, sem refletir prática comercial ou política institucional, e não caracterizam descumprimento do acordo ou estratégia anticompetitiva”.
Após a publicação da Nota Técnica do CADE mapeando o cenário concorrencial ao redor do mundo, o iFood protocolou uma petição junto ao órgão, em junho, solicitando que o órgão analise a conduta de outros players do mercado. O documento sugere a solicitação de dados e análise de estrutura de custos e precificação de empresas do setor.



