Pesquisa revela números alarmantes
Mais da metade (54%) das brasileiras que já se relacionaram com homens afirmam ter sofrido algum tipo de violência, enquanto apenas 11% dos homens reconhecem ter cometido agressão contra a parceira ou ex-parceira. É o que aponta a pesquisa de opinião “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva com apoio da Uber. O levantamento mostra ainda que cerca de 30 milhões de mulheres dizem já ter sido vítimas de violência por um parceiro ou ex-parceiro. Quando questionadas sobre situações específicas, esse número sobe para quase 48 milhões de brasileiras.
Tipos de violência mais comuns
Entre as formas de violência previstas na Lei Maria da Penha, a violência psicológica é a mais relatada, atingindo 42% das mulheres. Em seguida aparecem violência física (25%), violência moral (19%), violência sexual (10%) e violência patrimonial (9%). A pesquisa, que ouviu 1.500 pessoas de 16 anos ou mais em todas as regiões do país entre 22 e 30 de abril de 2026, tem margem de erro de 2,8 pontos percentuais.
Percepção sobre os agressores
De acordo com as brasileiras, a violência costuma ser praticada por homens próximos: 88% dos casos envolvem parceiros ou ex-parceiros; 33%, familiares ou parentes próximos; 29%, pessoas conhecidas; 27%, desconhecidos; e apenas 9% afirmam que todos os tipos de homens agridem igualmente. Apenas 6% mencionam outras mulheres como agressoras.
Obstáculos no enfrentamento
Entre os principais obstáculos para combater a violência, as mulheres apontam: medo de denunciar por represálias ou falta de proteção (68%), risco de impunidade dos agressores (56%) e lentidão da Justiça (39%). Também são citados a cultura que naturaliza a violência (35%), falta de serviços de apoio (25%), falta de aplicação das leis (24%), falta de preparo das forças de segurança (23%), falta de informação sobre direitos (17%) e falta de envolvimento dos homens (13%).
Conhecimento sobre a Lei Maria da Penha
A maioria das mulheres associa a Lei Maria da Penha à proteção das vítimas (73%). A responsabilização criminal dos agressores é mencionada por 15%, prevenção e enfrentamento por 4%, proteção institucional por 3%, direitos e cidadania por 3%, e críticas ou negação por apenas 1%. Antes da lei, 81% das mulheres afirmam que predominava a ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” e que as mulheres não tinham onde buscar ajuda. Além disso, 64% creem que as punições eram brandas.
Efetividade e desafios
Sete em cada dez mulheres afirmam que a Lei Maria da Penha tem impacto real em suas vidas, e 54% dizem se sentir mais protegidas por sua existência. Três em cada quatro brasileiras afirmam que a legislação as tornou mais conscientes sobre os riscos de sofrer violência. No entanto, 80% concordam que a lei ainda não funciona na prática como deveria, e 82% entendem que ela sozinha não é suficiente para enfrentar a violência. Apenas 41% consideram que as forças de segurança estão preparadas para atender adequadamente as vítimas. Entre os homens, 57% concordam que a existência da lei os faz tratar as mulheres de forma melhor, e 60% afirmam que ela os alerta sobre riscos de cometer violência.
Medidas consideradas eficazes
As ações apontadas como mais importantes para enfrentar a violência são: ampliar o apoio e a proteção às vítimas (91%), endurecer as leis e aumentar a punição aos agressores (91%), melhorar a aplicação das leis e o funcionamento da Justiça (90%), promover educação e prevenção (89%), facilitar o acesso aos canais de denúncia (89%), promover a autonomia financeira das mulheres (88%), fortalecer a atuação das forças de segurança (88%) e criar grupos de reflexão para homens que cometeram violência (73%).
Canais de denúncia
A denúncia é fundamental para romper o ciclo de violência. O Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) funciona gratuitamente em todo o país. Em emergências, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190. Também é possível registrar ocorrência nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) ou buscar atendimento no Ministério Público e na Defensoria Pública. A pesquisa inédita foi divulgada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva.



