O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva cometeu um erro ao demorar para dar aval ao novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada nesta quarta-feira, 5 de agosto de 2026, Ricupero avaliou que a lentidão na aprovação do nome indicado pelo presidente norte-americano, ainda não anunciado oficialmente, comprometeu o início das negociações bilaterais em áreas estratégicas como comércio, meio ambiente e tecnologia.
Demora prejudica agenda bilateral
Segundo Ricupero, a demora do Palácio do Planalto em aprovar o novo embaixador dos EUA no Brasil não tem justificativa técnica ou política. "Não há razão para tanta delonga. O Brasil precisa de uma relação madura com os Estados Unidos, e a ausência de um embaixador empossado atrasa a pauta que interessa aos dois países", declarou Ricupero, que também foi embaixador em Washington entre 1991 e 1993.
O ex-chanceler lembrou que, historicamente, o Brasil costuma aprovar indicados americanos em um prazo médio de 30 a 60 dias. Neste caso, o processo já se arrasta por mais de 120 dias, o que, na avaliação dele, envia um sinal negativo ao governo norte-americano e ao setor produtivo dos dois lados.
Impacto nas negociações comerciais
A ausência de um embaixador americano em Brasília afeta diretamente as negociações de acordos comerciais, como a possível abertura de mercado para produtos brasileiros e a cooperação em infraestrutura. "Cada dia sem embaixador é um dia perdido para os negócios. O Brasil perde oportunidades de investimento e os Estados Unidos perdem um parceiro confiável na região", afirmou Ricupero.
Ele citou, como exemplo, a pauta de energia limpa e a transição energética, áreas em que Brasil e EUA têm interesses convergentes. "Há um enorme potencial de cooperação em hidrogênio verde, biocombustíveis e minerais críticos. Mas sem um canal diplomático pleno, esses temas ficam em segundo plano", acrescentou.
Análise política e contexto
Ricupero também avaliou que a demora pode ter motivações políticas internas, relacionadas à base aliada do governo no Congresso. "Há setores do PT e de partidos aliados que são historicamente críticos aos Estados Unidos. O governo pode estar tentando equilibrar essas pressões, mas isso não pode custar a agenda estratégica do país", disse.
O ex-ministro ressaltou que a relação com os Estados Unidos é fundamental para o Brasil, independentemente de quem esteja na Casa Branca. "Precisamos de uma política externa de Estado, não de governo. A demora na aprovação do embaixador é um exemplo claro de como decisões táticas podem prejudicar interesses permanentes do país."
Reações e expectativas
Até o fechamento desta edição, o Itamaraty não comentou oficialmente as declarações de Ricupero. Nos bastidores, diplomatas brasileiros afirmam que a aprovação do novo embaixador dos EUA está em análise e que deve ser concluída nas próximas semanas. O nome indicado pelo presidente americano, segundo fontes, é um diplomata de carreira com experiência na América Latina.
Especialistas em relações internacionais ouvidos pelo GLOBO concordam que a demora é incomum e pode refletir um certo desconforto do governo Lula com a política externa americana, especialmente em relação à Ucrânia e às sanções à Rússia. No entanto, acreditam que a aprovação deve ocorrer sem maiores atritos, pois ambos os países têm interesse em manter um diálogo produtivo.
Números e prazos
De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores, o Brasil recebeu, nos últimos dez anos, uma média de 15 embaixadores estrangeiros por ano, com prazo médio de aprovação de 45 dias. A atual demora de mais de 120 dias é a maior desde 2019, quando a aprovação do embaixador da Venezuela levou cerca de 150 dias.
Ricupero finalizou sua análise com um conselho ao governo: "O Brasil não pode se dar ao luxo de tratar a relação com os Estados Unidos com descaso. O mundo está mudando e precisamos de aliados fortes. Aprovar o embaixador é o primeiro passo para uma parceria séria e produtiva."
A expectativa é de que o novo embaixador americano apresente as cartas credenciais ao presidente Lula até o final de setembro, permitindo o início imediato das negociações bilaterais.



