Numa rua residencial da Aclimação, o Suzuki Ie ocupa uma antiga casa de família que já foi pensão e ashram. Hoje, o restaurante comandado por Carlos Suzuki – neto de imigrantes japoneses e ex-barbeiro – oferece uma experiência gastronômica baseada na memória afetiva e na simplicidade. O cardápio foge do repertório básico da culinária japonesa: não há salmão com cream cheese, trufas ou combinações exuberantes. Em vez disso, servem-se gohan como acompanhamento de quase tudo, anchova grelhada, frango ao missô, karê e outros sabores que evocam a comida das avós nipo-brasileiras.
Kakiage da Avó e Sardinha com Técnica Minuciosa
A receita mais simbólica é o kakiage, um tempurá rústico que segue a receita da avó Tokue Kikushi Yoneyama – a dona Ruth. A massa leva farinha de trigo, fermento, água e temperos, resultando em um empanado mais encorpado, como se preparava em tempos de escassez. A sardinha ilustra a filosofia do chef: depois de limpa e filetada, passa a noite marinando no su (vinagre de arroz, sal e açúcar). Antes de montar os nigiris (R$ 45 a dupla), recebe cortes milimétricos que rompem as espinhas, tornando-as quase imperceptíveis. "É um trabalho minucioso, à base de pinça e faca", descreve Carlos Suzuki.
Pratos que Misturam Memória e Técnica
O sunomono é uma salada fresca de pepino com molho de mostarda, porque Suzuki nunca gostou do excesso de acidez das versões tradicionais. O curry é vegetariano, com grão-de-bico, batata e cenoura, lembrando a época em que cozinhava em templos Hare Krishna. O karaage ganhou versão com shimeji para acolher vegetarianos. Ao mesmo tempo, há respeito rigoroso pelas técnicas tradicionais: os peixes chegam inteiros sempre que possível, e os filés são retirados antes da evisceração, evitando contato com órgãos internos ou água corrente – método que preserva frescor, textura e sabor.
Ambiente de Casa e Preços Acessíveis
O salão do restaurante mantém o clima de lar, com louças desparelhadas e um quintal onde se ouve passarinhos em vez de buzinas. O prato mais caro custa R$ 78; os sashimis começam em R$ 35 (cinco fatias); o almoço executivo não chega a R$ 50. O bancha (R$ 12) é servido nas xícaras de dona Ruth, e o mocktail de matcha e limão (R$ 24) é bem-vindo. "Não parece um restaurante tentando reproduzir o Japão, nem um exercício de nostalgia; parece, simplesmente, uma casa sansei que abriu as portas", define a reportagem.
O Suzuki Ie funciona de quarta a sábado, das 12h às 15h30 e das 19h às 22h; domingo, das 12h às 16h. Endereço: Rua Paulo Orozimbo, 1121, Aclimação. WhatsApp: (11) 91562-7378.



