Gasolina com mais etanol: entenda o plano do governo e os riscos para carros antigos
Gasolina com mais etanol: riscos para carros antigos

O governo brasileiro aprovou o aumento do teor de etanol anidro na gasolina comum de 30% para 32%, como parte da Lei do Combustível do Futuro (14.993/2024). A medida, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 14 de janeiro de 2025, tem como objetivo elevar a autossuficiência energética do país e reduzir a importação de gasolina. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a mudança pode evitar a importação de 900 milhões de litros de gasolina por ano e reduzir o preço do litro em aproximadamente R$ 0,03.

Impacto em veículos antigos

No entanto, a decisão gerou preocupação entre proprietários de veículos antigos. Andrés Pesserl, presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), criticou a medida: “Apesar das justificativas ambientais, é um fator complicador para o já árduo trabalho de manutenção e preservação de um veículo antigo. Os carros fabricados até os anos 1990 possuem componentes que sequer foram projetados para a mistura atual de 30%”.

O novo teor de etanol, batizado de E32, foi aprovado após um estudo técnico encomendado pelo Ministério de Minas e Energia ao Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). O estudo concluiu que a mudança para E30 não afetava “de forma relevante” desempenho, dirigibilidade, consumo ou emissões. Contudo, o especialista em combustíveis Marcelo Manna, da MM-R Consulting, questiona as bases da decisão: “É importante notar que o estudo do IMT testou o E30, não o E32 agora aprovado. Além disso, nenhum veículo com tecnologia anterior à injeção eletrônica foi incluído na amostra e os testes duraram alguns meses em 2025, tempo insuficiente para capturar efeitos de corrosão, degradação de elastômeros e depósitos que se manifestam após milhares de quilômetros”.

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Riscos técnicos do etanol anidro

Manna explica que o etanol anidro é higroscópico, ou seja, absorve água do ar. Em tanques de aço de carros antigos, sem tratamento interno, a água se acumula no fundo, formando um eletrólito condutivo que acelera a corrosão galvânica, gerando partículas de ferrugem que entopem filtros e carburadores. Além disso, a degradação de mangueiras de borracha e o empobrecimento da mistura ar-combustível são problemas adicionais, especialmente em veículos que ficam parados por longos períodos.

Bruno Tinoco, proprietário da oficina Motorfast em São Paulo, relembra desafios históricos com combustíveis no Brasil: “Os importados que chegaram na década de 1990 e não passaram pela tropicalização sofreram muito com bicos injetores e bomba, que com dois anos de uso queimava por conta do nosso combustível ruim”. Ele recomenda o uso de gasolina de maior octanagem, como Podium, Ipimax Pro ou V-Power, manter o tanque com no máximo metade da capacidade e escolher postos de confiança.

Adaptações possíveis

Para alguns colecionadores, a nova mistura não é o fim do antigomobilismo. Fernando Toledo, proprietário de um BMW 520 1974 e um Volkswagen Variant 1600 1972, já prepara seus veículos: “No BMW, vou aumentar um pouco a taxa de compressão e trabalhar na admissão do carburador com tamanhos diferentes de giclê, conforme a proporção dos combustíveis”. Na Variant, ele destaca que o carburador sofre mais com etanol, mas a substituição de peças é simples e de baixo custo.

Toledo, no entanto, levanta uma questão mais ampla: “colecionar veículos é um artigo de luxo, e quem tem acesso a esse tipo de luxo deveria apoiar soluções que nos permitam continuar curtindo nosso hobby sem agredir o meio ambiente. Mas e os carros antigos que não são de coleção, e que muitas vezes são o veículo de uso diário daqueles que não têm acesso a modelos mais novos? Deveríamos estar discutindo como fortalecer a indústria nacional para termos peças de reposição mais baratas e confiáveis, e não a alta de 2% de etanol na gasolina”.

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