O longa-metragem A Fabulosa Máquina do Tempo, dirigido por Eliza Capai, deu início à competição nacional do 33º Festival de Cinema de Vitória. O filme, de caráter documental ou híbrido, tem como protagonistas crianças de uma pequena cidade no interior do Piauí: Guaribas. São meninas pré-adolescentes que, instigadas por uma entrevistadora (provavelmente a própria diretora), refletem sobre aspectos cruciais da vida: a entrada na puberdade, com seus temores e esperanças; o que esperar do futuro; como lidar com traumas do passado e questões não resolvidas, como o pai que bebia ou a mãe sacrificada que as criava sozinha.
Temas universais e angústias infantis
Surgem temas universais – ou, melhor dizendo, angústias – na fala das meninas quando o assunto passa a ser religião, a existência de um Deus onipresente e onisciente, as injustiças do mundo e a descoberta da morte, a inevitável finitude humana. De forma lúdica, o filme aborda essas questões prementes, muitas vezes incômodas. Muito bem produzido, com imagens claras, montagem direta e produção refinada, o longa também demonstra capacidade de síntese: resolve-se em meros 72 minutos, uma proeza para os dias atuais, em que obras extensas frequentemente oferecem pouco conteúdo.
Aqui, ocorre o contrário. Trata-se de um filme de aparência simples e rápido, mas que deixa muita coisa para ser trabalhada posteriormente pelo espectador. Fica conosco.
Revisão e controvérsias sobre artificialismo
Não é a primeira vez que o vejo. Assisti a uma sessão de A Fabulosa Máquina do Tempo no Festival É Tudo Verdade deste ano. O filme cresce na revisão. Lembro que muita gente se encantou com a obra, mas outro grupo fez restrições a um suposto artificialismo na fala das meninas, como se tivessem sido induzidas a dizer determinadas coisas ou que tudo fosse ensaiado. Não me pareceu assim, nem na primeira vez nem agora na revisão. Claro que há um dispositivo. Como a diretora não se encontra presente no Festival de Vitória, tudo que podemos fazer é especular. Imaginar que sim, existe um dispositivo por trás da filmagem e que não poderia ser de outra maneira.
É tolice pensar que o documentarista sai com sua câmera em estado de pureza e registra o 'real' à medida que este se apresenta. O documentário seria então mero registro espontâneo desse real que se oferece a quem souber captá-lo. A coisa é mais complicada. Não exclui pressupostos (o que é diferente de preconceitos) e estratégias para captar esse real fugidio. Na verdade, o documentário é um registro desse 'real' possível, da sua procura, da sua transcrição problemática.
Contexto político e social
No caso, o filme é o contato com essas crianças de uma determinada localidade e classe social, instigadas com perguntas para ver o que têm a dizer sobre elas e a vida ao seu redor. O resultado é que têm muito a dizer. E que, quando suficientemente amparadas pelos pais e por uma rede de apoio da própria sociedade, podem desenvolver suas potencialidades. O filme dá muito o que pensar, inclusive em termos políticos. No fim, mas apenas no fim, somos informados que Guaribas, no interior do Piauí, anos atrás era considerada uma das cidades com menor IDH, uma das mais pobres do país. Mas algo começou a mudar.
Há toda uma explicação para o título. Eliza Capai esteve em Guaribas em 2013 para realizar uma pesquisa sobre os impactos do Bolsa Família sobre os habitantes da região. Voltou em 2021 e reencontrou aquelas famílias e, em especial, as crianças. 'Além de rever aquelas famílias, me deparo com as novas crianças. Além de comer e estudar, elas eram tiktokers e tinham acesso a muitos outros mundos. Parecia que eu havia entrado em uma máquina do tempo e viajado para um futuro muito mais distante que aqueles oito anos que separaram as duas viagens', escreve a diretora no catálogo do festival.
Numa terceira viagem a Guaribas, em 2024, a diretora e equipe retornaram para ministrar uma oficina de audiovisual para meninas de sete a doze anos. A atividade tinha, entre outros fins, encontrar as melhores formas de contar uma história de transformação e projeção para o futuro, levando em conta o passado – daí a alusão à 'máquina do tempo'. O filme é um elogio às políticas sociais? É, mas sem proselitismo ou demagogia. Mostra, de forma convincente, o que pode acontecer a um país quando um governo apoia sua população em vez de hostilizá-la ou desprezá-la.
Outras atrações da abertura
Além desse primeiro longa, o Festival de Vitória trouxe outras atrações. Durante a longa noite de abertura, houve homenagem ao diretor capixaba Rodrigo Aragão, especialista em filmes de terror. Também foi apresentada uma seleta de curtas locais: Cinema, Poema e Gangrena, de Gustavo Guilherme da Conceição; Superfície, de Carolina Campista; Liberdade de Morar, de Penha Souza; e Salve Rainha, de Estevão Ribeiro e Fábio Carvalho. O festival prossegue até o dia 25, quando serão conhecidos os filmes premiados.



