Escravidão por herança persiste na ilha de Sumba, na Indonésia
Escravidão por herança persiste na ilha de Sumba, Indonésia

Em pleno século 21, na ilha de Sumba, na Indonésia, a escravidão hereditária continua a definir o destino de milhares de pessoas. Oficialmente abolida há mais de 160 anos, a prática permanece profundamente enraizada na região, onde homens e mulheres nascem em condição de servidão. Uma fotografia divulgada pela AFP mostra Umbu Ana Rara, um maramba (nobre), observando seu ata (escravo), Kanisius Kanyali Hambarita, enquanto prepara bebidas na vila de Tanggedu — cena representativa de uma hierarquia social que insiste em sobreviver.

Hierarquia social hereditária em Sumba

Na ilha de Sumba, a sociedade historicamente se divide entre nobres, conhecidos como maramba, e escravos, chamados ata. O sistema é transmitido por linhagem: um filho de ata nasce ata, assim como um filho de maramba nasce maramba. Essa condição não depende de delito ou dívida, mas de uma herança que se arrasta por gerações. Estima-se que milhares de pessoas estejam nessa situação, embora não haja números oficiais precisos devido à natureza submersa do problema.

Os ata geralmente vivem em terras pertencentes aos maramba, trabalhando sem remuneração em tarefas domésticas, agrícolas e rituais. Em contrapartida, recebem proteção e acesso limitado a recursos básicos, o que reforça a dependência. Casamentos, heranças e acordos entre famílias nobres frequentemente incluem a transferência de ata como parte do patrimônio, perpetuando o ciclo de servidão.

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A abolição que não chegou à prática

O governo colonial neerlandês aboliu oficialmente a escravidão no arquipélago indonésio no século XIX, há mais de 160 anos. No entanto, em Sumba, a medida teve pouco efeito. O isolamento geográfico da ilha e a força das tradições locais, conhecidas como adat, permitiram que o sistema continuasse funcionando à margem da lei. Mesmo após a independência da Indonésia e a promulgação de leis modernas que criminalizam a escravidão, a prática persiste em diversas comunidades.

O receio de represálias espirituais e a pressão social mantêm muitos ata na condição de submissão. Abandonar a vila ou o serviço ao maramba pode significar desonra para a família e até punições rituais. Por isso, muitos nem tentam buscar seus direitos. A falta de conhecimento sobre a legislação e a ausência de políticas públicas efetivas agravam o quadro.

Impactos na vida dos ata

A condição de servidão afeta diretamente o acesso a direitos fundamentais. Crianças nascidas em famílias ata frequentemente trabalham desde cedo e têm dificuldade para frequentar a escola. A falta de educação formal limita as oportunidades de trabalho fora do sistema e perpetua a pobreza. Além disso, a saúde dessas pessoas tende a ser precária, já que dependem da boa vontade dos maramba para obter atendimento médico.

Organizações de direitos humanos e grupos locais têm denunciado essa realidade, cobrando ações das autoridades indonésias. No entanto, a implementação de fiscalização em áreas remotas é um desafio. Especialistas apontam que a erradicação da escravidão hereditária em Sumba depende não apenas da aplicação da lei, mas também de uma transformação cultural que leve a população a questionar a naturalização desse sistema.

Um retrato da persistência da servidão

A imagem de Umbu Ana Rara ao lado de Kanisius Kanyali Hambarita, captada pela AFP, é um símbolo dessa contradição. Enquanto o nobre observa o escravo preparar bebidas, a cena retrata uma relação de poder que não mudou em séculos.

Para os ata, o futuro continua incerto. Sem uma ação coordenada entre governo, sociedade civil e lideranças tradicionais, a ilha de Sumba permanecerá como um exemplo de como a escravidão, mesmo abolida no papel, pode ainda estar viva na prática.

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