A senadora paraguaia Celeste Amarilla voltou a atacar o atacante francês Kylian Mbappé, afirmando que o jogador recebeu o 'karma paraguaio' após a derrota da França para a Espanha na semifinal da Copa do Mundo de 2026. A declaração gerou forte repercussão internacional e reacendeu o debate sobre os limites da imunidade parlamentar e a tipificação de crimes raciais no Paraguai.
Declarações e contexto
Em discurso no Senado paraguaio, Amarilla disse que Mbappé, que já havia feito comentários considerados depreciativos sobre o futebol sul-americano no passado, agora enfrentava as consequências de suas palavras. 'O karma paraguaio chegou para ele', declarou a senadora, em referência à eliminação francesa. A fala ocorreu poucas horas após o apito final da partida, que terminou 2 a 1 para a Espanha.
Não é a primeira vez que a parlamentar critica Mbappé. Em 2023, ela já havia chamado o jogador de 'arrogante' e 'desrespeitoso' após ele afirmar que o futebol europeu era superior ao sul-americano. Na ocasião, Amarilla sugeriu que Mbappé deveria 'pedir desculpas' aos sul-americanos.
Imunidade parlamentar e lacuna legal
Apesar das críticas, a legislação paraguaia dificulta a punição da senadora. Diferentemente do Brasil, onde a injúria racial é crime tipificado no Código Penal, o Paraguai não possui uma lei específica que criminalize ofensas raciais. Além disso, a Constituição paraguaia garante imunidade parlamentar para opiniões, palavras e votos dos congressistas no exercício do mandato.
De acordo com o advogado constitucionalista Juan Carlos Duarte, 'a imunidade material cobre declarações feitas dentro do Parlamento, mesmo que sejam consideradas ofensivas. Para que haja responsabilização, seria necessário que a fala configurasse crime previsto em lei, o que não é o caso'. A ausência de tipificação para injúria racial no país torna ainda mais remota a possibilidade de sanção.
Reação internacional e investigação na França
As declarações de Amarilla geraram indignação na França. O governo francês, por meio do Ministério das Relações Exteriores, classificou a fala como 'inaceitável' e anunciou que abrirá uma investigação diplomática. 'Esperamos que as autoridades paraguaias tomem as medidas cabíveis', afirmou o porta-voz do ministério, Pierre-Henri Dumont.
Organizações de direitos humanos também se manifestaram. A Anistia Internacional, em nota, disse que 'declarações de cunho racial por parte de autoridades públicas são preocupantes e devem ser repelidas, independentemente de imunidades'. A entidade pediu que o Paraguai revise sua legislação para alinhar-se aos padrões internacionais de combate ao racismo.
Impacto político no Paraguai
Internamente, a polêmica dividiu opiniões. Enquanto aliados de Amarilla defendem sua liberdade de expressão, opositores pedem sua cassação. O senador liberal Blas Llano afirmou que 'a imunidade não pode ser escudo para discurso de ódio'. Já o presidente do Senado, Silvio Ovelar, disse que o caso será analisado pela Comissão de Ética.
Especialistas apontam que o episódio expõe fragilidades legislativas. 'O Paraguai precisa urgentemente tipificar o crime de injúria racial para evitar que situações como essa fiquem impunes', afirmou a socióloga María Elena González. 'A imunidade parlamentar é importante para a democracia, mas não pode proteger discursos que incitem discriminação.'
Mbappé e o futebol sul-americano
Mbappé, por sua vez, não comentou diretamente as declarações. Em entrevista coletiva após o jogo, preferiu focar na derrota e no futuro da seleção francesa. 'É uma decepção, mas temos que levantar a cabeça', disse. O atacante, que já havia criticado a qualidade do futebol na América do Sul em 2022, gerou antipatia em vários países da região.
O episódio reacendeu o debate sobre a relação entre Europa e América do Sul no futebol. Enquanto alguns veem as falas de Amarilla como uma reação exagerada, outros consideram que a senadora expressou um sentimento compartilhado por muitos sul-americanos. 'O futebol é paixão, e as palavras de Mbappé foram vistas como desrespeito. Mas isso não justifica um discurso de ódio', ponderou o jornalista esportivo Carlos Ferreira.



