Cepal alerta sobre impactos do conflito no Golfo na América Latina
Cepal alerta sobre impactos do conflito no Golfo na AL

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) publicou estudo alertando que, embora a região tenha exposição comercial e logística direta limitada ao conflito no Golfo Pérsico, já foi afetada pela guerra por meio da transmissão da inflação. No curto prazo, o efeito é inflacionário, mas podem se seguir impactos nas políticas monetária e fiscal (médio prazo) e comerciais e financeiras (longo prazo).

Posição relativamente favorável

Segundo o organismo ligado à ONU, a América Latina e o Caribe estão em posição mais favorável que Ásia ou Europa, pois algumas das maiores economias são exportadoras líquidas de hidrocarbonetos. O choque energético melhora termos de troca, receitas de exportação e fiscais, mas pode ser contrabalançado por inflação, disrupções em cadeias de suprimento (inclusive alimentos) e possível endurecimento das condições financeiras internacionais.

Outro aspecto é a baixa exposição direta ao Golfo Pérsico e ao Estreito de Ormuz: exportações para a área representam apenas 1,4% do total regional, e importações, cerca de 0,7%. A região não depende dessa rota para abastecimento energético.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Matriz elétrica limpa atenua choque

A Cepal destaca que a região conta com matriz elétrica excepcionalmente limpa: geração renovável (hidrelétrica, eólica, solar e biomassa) ultrapassa 64%, ante média mundial de cerca de 33%. “Isso atenua a transmissão do choque energético para os custos de geração de eletricidade, um importante fator de repasse em outras regiões”.

Inflação já visível

A transmissão mais visível até agora veio pelo canal de preços. O choque da alta do petróleo e outros básicos gerou pressões inflacionárias capturadas pelos IPCs de abril de 2026. No Chile, a inflação em 12 meses passou de 2,4% (fevereiro) para 4% (abril); na Guatemala, de 1,5% para 3,2%; em Honduras, de 3,5% para 5,6%; no Peru, de 2,2% para 4%. No Brasil, o IPCA foi de 3,81% (fevereiro) para 4,14% (março), 4,39% (abril) e 4,72% (maio), recuando para 4,64% em junho.

A Cepal aponta duas vias: direta (peso dos combustíveis na cesta e amortecimento governamental) e indireta (transporte, alimentos, outros componentes), que ampliam a pressão inflacionária.

Cenários de impacto

Usando cálculos do Goldman Sachs, a Cepal estima que, com aumento de 25% nos preços energéticos em 2026 (barril a US$ 86), a inflação anual subiria entre 0,3 e 1,7 ponto percentual. No cenário mais grave (barril a US$ 115, +67%), os efeitos diretos seriam entre 0,9 e mais de 4,6 pontos percentuais. Para o Brasil, o impacto adicional seria de 1,1 p.p. e 2,9 p.p., respectivamente.

A Cepal alerta que o encarecimento dos fertilizantes põe em risco rendimentos agrícolas e pressiona preços de alimentos. “Na região, o Brasil está particularmente exposto a esse canal, por sua condição de grande exportador agrícola que depende em grande medida de fertilizantes importados — cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza vêm do exterior”.

Política monetária em dilema

Com o risco inflacionário, a Cepal adverte que o ciclo de cortes de juros pode ser afetado. “Os bancos centrais da região enfrentam atualmente um dilema de política: sustentar o ciclo de afrouxamento monetário que estava em curso em alguns países — necessário para apoiar a atividade — ou priorizar a ancoragem das expectativas diante das pressões inflacionárias decorrentes das hostilidades. Se houver um novo endurecimento das condições financeiras mundiais, as pressões cambiais associadas limitarão ainda mais a margem de política monetária”.

Impactos comerciais

No curto prazo, o canal comercial beneficiou exportadores líquidos de hidrocarbonetos e commodities. O Brasil já vinha com superávit comercial de US$ 3,739 bilhões (janeiro) e US$ 4,005 bilhões (fevereiro). Com o conflito, o superávit atingiu US$ 10,5 bilhões em abril de 2026, maior valor mensal desde junho de 2023, impulsionado por aumento de preços de soja, carne bovina e milho, e expansão do volume.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

No médio prazo, porém, pode haver impacto negativo na balança comercial devido a aumentos de preços e possível escassez de matérias-primas estratégicas, especialmente fertilizantes. “A agricultura brasileira — cujo principal produto é a soja, que representou 20,4% do valor total das exportações do país em abril de 2026, mas que inclui também milho, algodão, café e arroz, entre outros — é um setor altamente vulnerável ao fornecimento externo de fertilizantes, dado que as importações desses produtos representam mais de 85% de sua oferta no país”.

A Cepal observa que, embora o Brasil seja produtor e exportador de petróleo bruto, não tem capacidade interna de refino suficiente, necessitando importar derivados, especialmente diesel para o setor de transporte. “Nesse sentido, o impacto das hostilidades sobre o saldo comercial de petróleo e derivados no Brasil pode ser ambivalente”.