El Niño 2026/27 pode ser muito forte e impactar inflação, juros e Bolsa
El Niño muito forte pode impactar inflação, juros e Bolsa

Nas últimas semanas, o El Niño tornou-se cenário-base para os mercados, com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimando em 63% a chance de o fenômeno atingir intensidade 'muito forte' entre novembro e janeiro de 2026/27. Se confirmado, será um dos episódios mais intensos desde o início das medições, com efeitos que já começam a ser precificados no bolso do investidor brasileiro.

O que é o El Niño e seus efeitos no Brasil

O fenômeno é o aquecimento anormal das águas do Pacífico, alterando o padrão de chuvas global. No Brasil, a consequência costuma ser mais chuva no Sul, seca no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, e calor acima da média em grande parte do País. A escalada das projeções já aparece nos instrumentos de monitoramento: a NOAA ampliou de 4°C para 5°C a escala do modelo CFSv2 após simulações superarem o limite anterior.

Impactos na inflação e nos alimentos

O Santander calcula que, em um evento forte, o El Niño adiciona até 2,4 pontos percentuais ao pico da inflação de alimentos no Brasil. No IPCA cheio, o efeito é de 0,35 ponto percentual. O Morgan Stanley estima que um El Niño muito forte poderia somar até 1,68 ponto percentual ao IPCA cheio, dos quais 0,84 ponto acima do cenário-base já embutido em suas projeções. 'Vamos discutir El Niño de maneira mais intensa só em setembro, outubro, quando começar a afetar as culturas do café e da cana', afirma Carlos Thadeu, economista da BGC Liquidez.

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Pressão sobre juros e dólar

Marcos Praça, diretor de Análises da ZERO Markets, afirma que os efeitos negativos começam já em julho e vão até o fim do ano, estendendo-se às safras seguintes por causa das queimadas. 'O El Niño vai representar um choque de oferta, aumenta os preços de alimentos e energia, reduzindo o poder de consumo das famílias', diz. Na avaliação dele, essa pressão pode fazer o Banco Central interromper a queda dos juros em 14% ao ano, podendo até voltar a subir a taxa. O Morgan Stanley avalia que um El Niño muito forte pode adiar a retomada dos cortes, esperada para dezembro.

Para o câmbio, Thadeu espera impacto no fim do ano, combinando pressão sazonal, safra pior de soja e juros mais baixos, o que pode ser 'uma bomba para o Banco Central'.

Ganhadores e perdedores na Bolsa

No setor elétrico, Daniel Gewehr, do Itaú BBA, vê oportunidade de compra: 'Talvez o preço de energia caia um pouco no Sul, mas o preço de energia é para cima no médio prazo'. O banco prefere distribuidoras expostas ao Sudeste e Centro-Oeste, como Energisa (ENGI11) e Equatorial (EQTL3), e geradoras como Eneva (ENEV3) e Axia. Já o Santander discorda no caso da Copel (CPLE6), pois mais chuva no Sul derruba o preço local da energia.

Na ponta perdedora, a SLC Agrícola (SLCE3) é a mais citada, com risco concentrado no MATOPIBA. O Banco do Brasil (BBAS3) deve ser negativamente afetado pelo crédito rural nas regiões que secam.

Como se proteger

Fora da Bolsa, o açúcar aparece como um dos vencedores mais claros, com alta sensibilidade histórica ao El Niño, segundo o Morgan Stanley. Lucas Sigu, da Ciano Investimentos, recomenda diversificar em uma cesta de commodities. Régis Chinchila, da Terra Investimentos, sugere empresas com receitas previsíveis ou em dólar.

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