Daniela Villarroel, bombeira voluntária de 28 anos, passou 18 dias consecutivos resgatando sobreviventes e recuperando corpos após o terremoto duplo que atingiu a Venezuela em 24 de junho. O epicentro foi no estado de La Guaira, onde mais de 5 mil pessoas morreram e cerca de 50 mil seguem desaparecidas, segundo autoridades venezuelanas. A experiência deixou marcas profundas na jovem nutricionista, que ainda lida com o cheiro de morte impregnado em suas roupas e as vozes das vítimas ecoando em sua mente.
Rotina de resgate e desafios
Villarroel integra o Corpo de Bombeiros Voluntários da Universidade Central da Venezuela (UCV) há sete anos. No dia do terremoto, ela interrompeu seu trabalho como nutricionista e se juntou à equipe. Sem salário e com equipamentos comprados com recursos próprios, ela usava apenas luvas e uma corda curta. A cada dia, saía do quartel às 8h, percorria 40 km na carroceria de um caminhão e trabalhava até a meia-noite, retornando para casa após as 2h. "Bastava os sobreviventes te verem para segurarem a sua mão e te levarem até o lugar onde os familiares haviam ficado soterrados", conta ela, ao lembrar da chegada a La Guaira.
Resgate de Gabriel e a primeira vítima
O primeiro resgate de Villarroel foi o de Gabriel, um homem de 22 anos que sobreviveu graças a um colchão de ar formado pelos corpos do pai, da mãe e da esposa grávida. "Eu desci seis metros por um túnel de um metro de diâmetro. Tive que entrar me arrastando, como uma minhoca", descreve. Gabriel pediu que ela guardasse o relógio do pai, o colar da mãe e a aliança da esposa, únicas lembranças que levaria deles. Após o resgate, Villarroel dormiu satisfeita, mas os dias seguintes trouxeram cenas mais difíceis, como corpos esmagados por colunas e o cheiro de decomposição.
Operação de oito horas e a 'tia'
O resgate mais longo durou oito horas em um prédio desabado em Caribe, bairro de Caraballeda. A vítima era uma senhora chamada de "tia" pelos bombeiros, presa no segundo andar. "Os quatro primeiros andares ficaram achatados como panquecas", lembra Villarroel. Com 1,60 m e 58 kg, ela era ideal para espaços estreitos. Após remover escombros e encontrar dois corpos, que cobriu com chapas de metal, ela alcançou a mulher, que usava um vestido rosa e estava em posição fetal. "Ela estava quente. Perguntei se tinha sentido meu toque, disse que sim." A equipe usou uma esmerilhadeira para cortar os pés da mesa que a prendia, e Villarroel a ajudou a esticar as pernas, enquanto a vítima gritava de dor.
Impacto psicológico e apoio dos cães
A partir da segunda semana, Villarroel passou a ter dificuldade para dormir, ouvia vozes e perdeu o apetite. "O mais difícil foi o cheiro... Sinto que nunca vou me livrar deste cheiro de morte", desabafa. Ela só conseguiu chorar três semanas depois, durante sessão com sua terapeuta, que a ajudou a entender que as lembranças eram vívidas por envolverem todos os sentidos. "O sentimento que me persegue é o de que eu poderia ter feito mais", diz. Em casa, seus cães Emma, Chimuelo e Sisi a esperavam sem comer, e agora dormem aos seus pés. "Eles me lambem mesmo quando já não tenho forças para retribuir o carinho."



